Descobertas arqueológicas no litoral de Santa Catarina trazem à luz as complexas dinâmicas sociais e alimentares do Brasil no início do século XX. Cacos de cerâmica, examinados quimicamente, indicam que grupos de imigrantes alemães e a população local, de origem mestiça, possuíam hábitos alimentares e estilos de vida significativamente diferentes.
A pesquisa, publicada na Royal Society Open Science e coordenada por André Carlo Colonese, da Universidade Autónoma de Barcelona, analisou vestígios de cerâmica em quatro sítios arqueológicos na região da Baía da Babitonga. Os resultados sugerem que a modernização do país não ocorreu de forma homogênea, com diferenças marcantes entre os recém-chegados e as populações já estabelecidas há séculos.
Enquanto imigrantes, predominantemente alemães à época, demonstravam maior integração à produção comercial e consumiam mais produtos de origem europeia, como laticínios e cereais como o trigo, a população local, descendente de indígenas, africanos e portugueses, dependia mais de recursos pesqueiros e da agricultura de subsistência. Essa população consumia intensamente peixes e mariscos, além de caçar animais terrestres.
Avanço Tecnológico na Arqueologia
O estudo foi possível graças ao avanço das técnicas de análise química, que permitem identificar resquícios moleculares de alimentos cozidos ou armazenados nas vasilhas de cerâmica. A análise de lipídios e proteínas forneceu dados precisos sobre a dieta dos antigos moradores, associando-a a outros aspectos de seu estilo de vida e organização social.
As diferenças na produção da cerâmica também são um indicativo social. Alguns sítios apresentaram cerâmica produzida em roda de oleiro, uma técnica voltada para o comércio em massa e mais acessível aos imigrantes. Outros sítios revelaram cerâmica moldada manualmente, com decorações que remetem a tradições indígenas e africanas, indicando um acesso restrito a bens industrializados e uma maior dependência de recursos locais e tradições.
Integração ao Mercado e Estilos de Vida
Os pesquisadores atribuem as diferenças observadas ao grau de integração das comunidades com os sistemas de comércio formal e propriedade privada da época. Imigrantes, com maior facilidade de acesso à terra e voltados para mercados, adotavam um modelo de produção e consumo europeu. Por outro lado, a população local, com acesso mais livre a recursos pesqueiros, mantinha meios de subsistência sem depender tanto do mercado formal.
Apesar das distinções, ambos os grupos compartilhavam o consumo de alimentos básicos presentes na dieta brasileira até hoje, como mandioca, arroz, feijão e carne de frango. No entanto, a diversidade de recursos explorados pela população mais antiga, incluindo a pesca de corvina e até a captura de mamíferos marinhos e terrestres, evidencia uma relação mais profunda e diversificada com o ambiente local.
