A cidade de Jaguaribara, no Ceará, será o lar da primeira fábrica brasileira dedicada à produção em escala industrial de curativos biológicos feitos a partir da pele de tilápia liofilizada. A iniciativa, que visa oferecer uma alternativa inovadora e acessível para o tratamento de feridas e queimaduras, é fruto de um contrato de licenciamento tecnológico entre a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o consórcio Biotec’s.
O consórcio, formado pelas empresas Biotec Solução Ambiental Indústria e Comércio e Biotec Controle Ambiental, obteve os direitos sobre a tecnologia desenvolvida pela UFC. A liofilização, processo que remove a água da pele de tilápia preservando suas propriedades, permitirá a conservação do material por longos períodos sem a necessidade de refrigeração, facilitando sua logística e aplicação. A expectativa é que a planta fabril esteja operacional até meados de outubro de 2027.
Bruno Braga, diretor de negócios do grupo Biotec, informou que, embora a construção ainda não tenha começado, as negociações com o governo do estado para formalizar o convênio estão avançadas. Durante o período de preparação, a Biotec iniciará a produção de lotes piloto seguindo as Boas Práticas de Fabricação (BPF), etapa crucial para a obtenção dos registros sanitários necessários junto à Anvisa. A assinatura do convênio estadual é um passo fundamental para o cronograma e o início efetivo da fabricação.
A capacidade produtiva inicial da fábrica está estimada em cerca de 4.300 peles por dia, com projeção de alcançar a marca de 12 mil unidades diárias em sua capacidade máxima, expandindo gradualmente ao longo dos três primeiros anos de operação. Braga também destacou o compromisso da Biotec em continuar investindo em pesquisa e desenvolvimento, com o objetivo de explorar o potencial da pele de tilápia para a criação de outros produtos inovadores no futuro, rompendo com o ciclo de tecnologias patenteadas que permanecem restritas ao ambiente acadêmico.
Inovação com Raízes na Pesquisa Acadêmica
A pesquisa que originou o curativo de pele de tilápia teve início em 2015, a partir de um desafio lançado por Admar Maciel, cirurgião plástico e ex-aluno da UFC. Segundo Manoel Odorico de Moraes Filho, professor titular da UFC, fundador e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da instituição, a abordagem convencional para tratamento de queimaduras, como o uso de sulfadiazina de prata, apresenta desvantagens como custo elevado e necessidade de trocas frequentes, que causam desconforto ao paciente. A pele humana de cadáver, embora considerada padrão-ouro, enfrenta severas restrições de estoque no Brasil, atendendo apenas uma pequena fração da demanda devido à dificuldade em obter doadores e à escassez de bancos de pele no país.
Testes laboratoriais e em animais confirmaram a eficácia da membrana biológica da tilápia no tratamento de queimaduras de segundo grau, tanto superficiais quanto profundas. O curativo demonstrou potencial para reduzir o tempo de cicatrização em cerca de 10% a 15%, aliviar a dor, prevenir infecções e diminuir custos hospitalares pela menor frequência de trocas. Em casos de queimaduras de terceiro grau, o material é utilizado para acelerar a granulação inicial do tecido, preparando a área para autoenxertos e auxiliando na regeneração da área doadora do próprio paciente.
O professor Odorico explicou que, em queimaduras de terceiro grau, que afetam camadas mais profundas da pele, a pele de tilápia é aplicada para iniciar o processo de cicatrização. Após essa fase inicial, um enxerto de pele do próprio paciente é posicionado sobre a área queimada, e a pele de tilápia é então utilizada para cicatrizar o local de onde o enxerto foi retirado. Atualmente, a produção da UFC é restrita a fins de pesquisa.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Universidade Federal do Ceará e pelo consórcio Biotec’s.
