Relatos de anedonia e queda de libido assombram usuários de canetas emagrecedoras
O sucesso das chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos como Mounjaro e Ozempic que atuam como agonistas do hormônio GLP-1, tem vindo acompanhado de relatos preocupantes. Usuários têm manifestado uma diminuição significativa no interesse por atividades que antes lhes traziam prazer, um sintoma conhecido como anedonia, além de queda na libido e desânimo geral. A advogada Giovana dos Santos Sene, de 25 anos, é um desses casos. Após perder sete quilos e deixar de usar insulina com o tratamento de Mounjaro, ela relata uma notável redução na disposição e no interesse por lazer e relacionamentos.
Giovana descreve que os efeitos colaterais, como fraqueza, cansaço e náuseas, são mais intensos nos dias seguintes à aplicação semanal da medicação, impactando diretamente sua rotina e bem-estar. Ela compara o desânimo a um período anterior de depressão, o que a levou a questionar a continuidade do tratamento, embora tenha decidido seguir a orientação médica inicial de três meses. As informações foram reunidas a partir de reportagens sobre o tema.
Mecanismos cerebrais sob investigação
A anedonia e a perda de interesse sexual, embora ainda não comprovadas cientificamente como efeitos diretos dos agonistas de GLP-1 em humanos, são hipóteses que ganham força entre especialistas. Neurocientistas e neurologistas levantam a possibilidade de que medicamentos como Mounjaro e Ozempic possam interferir em circuitos cerebrais ligados ao sistema de recompensa, motivação e processamento de emoções. Inicialmente, acreditava-se que a ação dessas substâncias se restringia ao controle da fome e saciedade, mas estudos mais recentes indicam uma atuação mais ampla no cérebro.
O neurologista Renato Faria da Gama explica que o sistema de recompensa, ativado por experiências prazerosas como comer uma refeição saborosa ou ter uma relação sexual satisfatória, pode ser modulado por esses medicamentos. Essa atuação em áreas cerebrais relacionadas à recompensa e motivação levanta a hipótese de que eles possam, de fato, afetar a libido e o interesse geral.
Causas indiretas e novas pesquisas
Além do possível impacto direto no sistema de recompensa, o nutrôlogo Guilherme Giorelli aponta que o desânimo e a perda de libido podem ser consequências indiretas das mudanças abruptas na alimentação e do próprio processo de emagrecimento. A redução de comportamentos impulsivos, também associada à ação dos agonistas de GLP-1 no córtex pré-frontal, pode se manifestar na diminuição do interesse por diversas atividades, incluindo alimentação, compras e sexo.
Estudos preliminares, como uma revisão publicada na revista Sexual Medicine Reviews e uma pesquisa recente na Obesity Pillars, têm apontado para uma possível redução da motivação sexual em estudos com animais e relatos em humanos. No entanto, as evidências em pessoas ainda são escassas e heterogêneas, sem uma relação clara de causa e efeito estabelecida. Um estudo com três mulheres obesas que apresentaram anedonia durante o tratamento com tirzepatida mostrou melhora dos sintomas com a redução da dose, reforçando a necessidade de mais pesquisas.
Impactos sociais e o “Ozempic divorce”
As transformações físicas e psicológicas decorrentes de uma perda de peso significativa, seja por medicamentos ou outros métodos, também podem gerar repercussões sociais. O fenômeno conhecido como “Ozempic divorce” nos Estados Unidos ilustra separações que ocorreram após processos de emagrecimento acentuados, um padrão já observado após cirurgias bariátricas. Estudos indicam que grandes perdas de peso podem influenciar dinâmicas de relacionamento, levando a rupturas ou ao início de novas conexões. A complexidade dos efeitos dessas novas gerações de medicamentos para emagrecer exige atenção contínua de médicos e pacientes para garantir um acompanhamento seguro e eficaz.
