Canetas emagrecedoras do Paraguai contêm princípio ativo do Mounjaro, aponta análise da Unicamp
Canetas emagrecedoras do Paraguai contêm princípio ativo do Mounjaro, aponta análise da Unicamp

Canetas emagrecedoras do Paraguai contêm princípio ativo do Mounjaro, aponta análise da Unicamp

Análise laboratorial da Unicamp confirma presença de tirzepatida em canetas emagrecedoras paraguaias vendidas no Brasil. Cinco marcas de canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai e comercializadas ilegalmente no Brasil contêm tirzepatida, o mesmo princípio ativo do Mounjaro, medicamento aprovado para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. A constatação é de uma análise independente realizada por […]

Resumo

Análise laboratorial da Unicamp confirma presença de tirzepatida em canetas emagrecedoras paraguaias vendidas no Brasil.

Cinco marcas de canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai e comercializadas ilegalmente no Brasil contêm tirzepatida, o mesmo princípio ativo do Mounjaro, medicamento aprovado para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. A constatação é de uma análise independente realizada por pesquisadores do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp, a pedido da Folha de S.Paulo. As amostras, adquiridas em redes sociais como TikTok, Instagram e WhatsApp, também não apresentaram indícios de mistura com semaglutida, princípio ativo de outros medicamentos populares para perda de peso, como Ozempic e Wegovy.

O estudo analisou as substâncias Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex, de laboratórios paraguaios como Catedral, Indufar, Eticos, Quimfa e Lasca. Utilizando técnicas como cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC-DAD), espectrometria de massas de alta resolução (LC-HRMS) e dicroísmo circular (DC), os pesquisadores identificaram a presença, quantificaram e analisaram a estrutura molecular do princípio ativo. Todas as amostras exibiram identidade molecular compatível com a tirzepatida encontrada no Mounjaro.

Apesar da confirmação da presença do princípio ativo, a análise da Unicamp não avaliou a presença de impurezas, contaminantes, nem a eficácia e segurança dos medicamentos. As informações foram reunidas a partir de análise laboratorial independente e reportagem investigativa.

Riscos e ilegalidade da comercialização no Brasil

Embora as canetas paraguaias possuam registros válidos na autoridade sanitária do Paraguai (Dinavisa), elas são proibidas no Brasil por não possuírem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A comercialização e importação desses produtos configuram crime de contrabando, com pena prevista de dois a cinco anos de prisão, e quem os revende pode responder por crime contra a saúde pública, além de contrabando. O consumidor que adquire esses medicamentos no mercado paralelo também pode ser enquadrado no crime de receptação.

A Anvisa ressalta que análises laboratoriais pontuais, como a realizada pela Unicamp, são valiosas, mas insuficientes para garantir a qualidade, segurança e eficácia de um medicamento. A agência alerta para o risco de falsos positivos e negativos e destaca que a avaliação regulatória completa abrange diversos aspectos, incluindo condições de fabricação, armazenamento, transporte, perfil de impurezas e validação de métodos analíticos do fabricante, informações que não foram acessadas pelo estudo.

Fabricante e especialistas alertam para perigos

A Eli Lilly, detentora da patente do Mounjaro no Brasil, enfatiza que a identificação do princípio ativo não garante segurança, eficácia ou equivalência ao medicamento original. A empresa argumenta que a produção, pureza e a resposta do organismo a um medicamento exigem conhecimento técnico especializado e controles rigorosos que uma análise isolada não substitui.

Médicos endocrinologistas alertam que o uso dessas canetas representa um risco significativo. A falta de conhecimento sobre o que exatamente está sendo aplicado, a ausência de garantia sobre a pureza e a estabilidade do medicamento, que podem ser comprometidas por condições inadequadas de transporte e armazenamento, são preocupações centrais. Além disso, a automedicação e o risco de erros de dosagem, especialmente em apresentações em ampolas que exigem o uso de seringas, podem levar a complicações graves como hipoglicemia, pancreatite, náuseas, vômitos e desidratação.

Concentração elevada em uma das amostras

Um dos achados mais preocupantes da análise da Unicamp foi a concentração do princípio ativo na amostra de Gluconex, que se mostrou 60% maior do que a esperada em comparação com o Mounjaro de referência. As outras quatro canetas apresentaram variações de concentração de até 20%, consideradas aceitáveis pela indústria farmacêutica. O pesquisador alerta que a dosagem excessiva de tirzepatida, como no caso do Gluconex, aumenta consideravelmente o risco de eventos adversos, incluindo hipoglicemia severa.

A compra desses medicamentos no mercado paralelo também expõe o consumidor a riscos jurídicos, como a dificuldade de responsabilizar alguém em caso de danos. A advogada especialista em direito da saúde Anna Goulart explica que mesmo produtos registrados em outros países necessitam de aprovação da Anvisa para serem comercializados no Brasil, passando por um rigoroso processo de avaliação de qualidade, segurança e eficácia.

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