Sintomas como gases, inchaço e diarreia após o consumo de leite levam muitos a se autodiagnosticarem como intolerantes à lactose e a eliminarem laticínios da dieta. No entanto, especialistas alertam que essas reações podem ter outras origens, como alergia à proteína do leite de vaca ou sensibilidade a componentes específicos, sendo fundamental a busca por um diagnóstico médico preciso.
A automedicação e a exclusão de alimentos sem orientação profissional podem trazer riscos nutricionais e atrasar a investigação de outras condições de saúde. O gastroenterologista Leandro Gonzales destaca que desconfortos digestivos podem estar ligados a fatores como hipersensibilidade visceral, volume ingerido, teor de gordura da bebida e velocidade do esvaziamento gástrico, e não apenas à deficiência da enzima lactase.
Um estudo da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) revelou que, de 100 voluntários que afirmavam ter alergia alimentar, apenas 35 tiveram resultados positivos em testes. A prevalência exata de alergias alimentares no Brasil ainda é incerta, mas o diagnóstico correto deve envolver histórico clínico, exames e, quando necessário, testes de provocação oral, antes de qualquer restrição alimentar.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), estudos científicos e informações de mercado sobre o consumo de produtos lácteos.
Diferenciando as reações ao leite
É crucial distinguir entre intolerância à lactose, alergia à proteína do leite de vaca (APLV) e outras sensibilidades. Na intolerância à lactose, o corpo tem dificuldade em digerir o açúcar do leite devido à falta da enzima lactase, e produtos sem lactose geralmente resolvem o problema. Já a APLV é uma resposta do sistema imunológico às proteínas do leite, podendo afetar pele, intestino e sistema respiratório, exigindo a exclusão total de produtos bovinos.
Uma terceira possibilidade em investigação é a sensibilidade à beta-caseína A1, uma proteína presente no leite convencional. Sua digestão pode gerar o peptídeo beta-casomorfina-7 (BCM-7), associado a desconfortos em indivíduos sensíveis. Nesses casos, o leite A2, que contém apenas a proteína A2 e não forma o BCM-7, pode ser uma alternativa.
O crescimento do leite A2 e a importância do diagnóstico
O mercado de leite A2 tem apresentado crescimento expressivo no Brasil, com a produção saltando de 9,5 milhões de litros em 2023 para uma projeção de 28,1 milhões em 2025. Empresas responsáveis pela certificação reforçam a importância de buscar selos de garantia na embalagem para assegurar a origem do produto. No entanto, a troca para o leite A2 não é uma solução universal e o diagnóstico médico permanece indispensável.
Relatos de consumidores, como o do pneumologista Humberto Bogossian e do personal trainer Paulo Henrique dos Santos, ilustram como a identificação correta da causa do desconforto, seja APLV ou sensibilidade a componentes específicos, permitiu a reintrodução de laticínios na dieta com segurança. Especialistas como a nutricionista Luiza Zanatta enfatizam que a decisão de mudar a dieta não deve se basear em tendências de redes sociais, mas sim em uma investigação clínica aprofundada.
A Anvisa já reconhece a alegação funcional de que o leite A2 não promove a formação de BCM-7 durante a digestão. A disponibilidade de mais opções no mercado, como o leite A2, permite que muitas pessoas continuem a usufruir dos benefícios nutricionais dos laticínios sem a necessidade de exclusão total da dieta, desde que a causa do desconforto seja devidamente identificada e tratada.
