Buscas por suplementos alimentares atingem pico histórico no Google
As pesquisas por suplementos alimentares alcançaram o maior patamar já registrado pelo Google Trends, tanto no Brasil quanto globalmente, em 2026. O termo genérico “suplemento alimentar” e consultas específicas como “ômega 3”, “magnésio”, “vitamina D”, “vitamina B12” e “suplemento de ferro” também bateram recordes de interesse. No Brasil, o aumento nas buscas pelo termo “suplemento alimentar” foi de 100% entre janeiro e agosto de 2026, comparado ao mesmo período de 2021, enquanto no mundo o crescimento foi de quase 190%.
Essa alta expressiva reflete uma percepção generalizada de que a suplementação pode ser um caminho para melhorar a saúde. No entanto, médicos e endocrinologistas alertam para os riscos do uso indiscriminado e automedicado. “Existe o mito hoje extremamente difundido de que o uso de suplementos de forma automedicada e indiscriminada gera saúde. Isso não está relacionado à saúde, não melhora a saúde, não melhora longevidade e traz uma série de riscos”, afirma Alana Rocha, médica e professora de endocrinologia da Afya Educação Médica Vitória.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Google Trends e análises de especialistas em endocrinologia e nutrição.
O que leva ao aumento da procura e quais as principais dúvidas?
As três perguntas mais buscadas por brasileiros no Google em 2026 foram “Qual o melhor suplemento?”, “Para que serve o suplemento?” e “O que é suplemento alimentar?”. Essa curiosidade generalizada, aliada à oferta crescente no mercado, impulsiona o interesse. Paulo Miranda, coordenador da comissão internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), ressalta que o aumento do consumo não significa uma necessidade real para a maioria das pessoas. “Estamos vendo uma onda de aumento do uso de suplementos, em grande parte sem necessidade. Hoje, vemos pessoas saudáveis tomando quatro, cinco, dez comprimidos por dia para se manter saudáveis. Isso não existe”, pontua.
A suplementação é indicada em casos específicos, como prevenção e tratamento de osteoporose, gestação, pós-cirurgia bariátrica e deficiências nutricionais comprovadas. A primeira abordagem deve ser a avaliação alimentar, ajustando a dieta quando possível. Caso a ingestão de nutrientes seja insuficiente e não possa ser corrigida apenas com a alimentação, a suplementação pode ser considerada.
Entendendo o que é e para que serve um suplemento
Um suplemento alimentar é definido como um produto destinado à ingestão oral que visa complementar a alimentação de pessoas saudáveis com nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos. Pode conter vitaminas, minerais, proteínas, aminoácidos, creatina, fibras e outros componentes autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). É importante frisar que suplementos são considerados uma categoria de alimento, não de medicamento, e não devem ser divulgados com a finalidade de prevenir ou curar doenças.
Em relação ao ganho de peso, os especialistas explicam que depende do produto e do contexto. Vitaminas e minerais possuem poucas calorias, mas proteínas, carboidratos e produtos hipercalóricos podem contribuir para o ganho de peso se adicionados à dieta sem ajuste. A creatina, por exemplo, pode aumentar o peso corporal inicial devido à retenção de água nas células musculares, sem implicar em aumento de gordura.
Suplementos específicos: o que dizem os especialistas?
A busca por “o melhor suplemento” revela uma falta de compreensão sobre a individualidade da suplementação. Não existe um produto universalmente superior. A escolha ideal depende das necessidades específicas de cada indivíduo, considerando fatores como alimentação, objetivos, condições de saúde e exames. Para ganho de massa muscular, a creatina monoidratada é citada com boa evidência, junto a fontes de proteína como whey protein e caseína, mas sempre associada a treinamento de força, dieta adequada e sono.
Para queda de cabelo, a causa deve ser investigada antes de qualquer suplementação. Deficiências de ferro, alterações hormonais ou dermatológicas podem ser as razões. Da mesma forma, não há suplemento milagroso para emagrecimento; proteínas e fibras podem auxiliar na saciedade como parte de uma estratégia nutricional, mas não funcionam como “queimadores de gordura”. Para a menopausa, cálcio e vitamina D podem ser indicados em casos específicos, mas fitoterápicos e isoflavonas têm eficácia variável.
A biotina, associada a cabelos e unhas, não tem comprovação de benefícios em altas doses para quem não possui deficiência, podendo ainda interferir em exames laboratoriais. Suplementos para memória também não são solução universal, sendo crucial investigar fatores como sono, medicamentos e possíveis deficiências nutricionais, como de vitamina B12.
Cuidados e recomendações para o consumidor
O uso de bicarbonato de sódio como suplemento é desaconselhado pela maioria dos especialistas devido aos riscos de efeitos colaterais gastrointestinais e sobrecarga de sódio, sendo perigoso para automedicação. Quanto ao melhor horário para tomar vitaminas, vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) podem ser ingeridas com refeições que contenham gordura, enquanto as hidrossolúveis possuem mais flexibilidade. Interações entre nutrientes e medicamentos devem ser consideradas, como a absorção de cálcio e ferro, ou a interferência de minerais e vitaminas em hormônios da tireoide.
O consumidor deve sempre verificar a procedência dos suplementos e se as empresas seguem as normas sanitárias da Anvisa. Consultar o número de registro ou notificação no rótulo no sistema da agência e verificar listas de produtos irregulares são medidas essenciais. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) inclusive proibiu, recentemente, a fabricação, comercialização e uso de suplementos das marcas SharkPro e Newfit por irregularidades no controle de qualidade e adulteração, o que pode ter impactado o interesse recente em informações sobre o tema.
