Um prédio discreto na região central de Curitiba abriga um tesouro científico: o Biobanco do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe (IPP). Desde 2015, o local reúne cerca de 30 mil amostras de tumores, constituindo uma das maiores coleções de tumores pediátricos do mundo dedicadas à pesquisa. A iniciativa, liderada pelo médico Bonald Cavalcante de Figueiredo, é fundamental para o avanço de estudos sobre cânceres infantis raros, abastecendo pesquisas em âmbito nacional e internacional.
A equipe de 15 pesquisadores do IPP é responsável por receber, catalogar e processar tecidos e fluidos tumorais provenientes de pacientes do Hospital Pequeno Príncipe, um centro de referência em atendimento infantil de média e alta complexidade. O biobanco, inspirando-se em modelos internacionais como o de Porto, em Portugal, se destaca por ser o único no Brasil focado exclusivamente em amostras pediátricas. Com capacidade para armazenar até 200 mil amostras, o projeto expandiu-se significativamente desde sua criação.
O funcionamento de um biobanco assemelha-se ao de um banco de sangue, mas com finalidade científica: armazena amostras biólogicas, como tecidos e células, para investigação. A operação envolve uma logística cuidadosa, com a equipe coletando amostras logo após a remoção cirúrgica dos tumores. Essas amostras são então conservadas em freezers a temperaturas extremamente baixas (-80°C, -30°C) ou em nitrogênio líquido (-150°C).
Cultivo de tumores em modelos animais
Uma faceta inovadora do biobanco do IPP é a manutenção de uma parte das amostras vivas em camundongos, em um biotério especializado. Esses animais, geneticamente modificados para serem imunodeprimidos, permitem que os tumores humanos cresçam e se desenvolvam de maneira similar ao que ocorreriam em crianças. Essa técnica viabiliza o estudo aprofundado de fatores ligados à agressividade do câncer, alterações genéticas e a descoberta de possíveis terapias-alvo.
A estratégia consiste em implantar o tumor humano em camundongos geneticamente modificados. O diretor do biobanco explica que os animais replicam fielmente o comportamento do tumor: se ele é maligno na criança, também será no camundongo. Essa abordagem permite que o próprio animal funcione como um biobanco vivo, mantendo as características originais do tumor sem intervenção adicional. Atualmente, cerca de 150 camundongos têm tumores implantados, com capacidade para expandir esse número.
Colaborações e aplicações práticas
O trabalho do biobanco já gerou colaborações com 18 grupos de pesquisa, sendo cinco deles no exterior. Um exemplo notável foi a colaboração com o Hospital da Criança St. Jude’s, nos Estados Unidos. Uma amostra tumoral enviada por eles permitiu o cultivo do tumor em camundongos e a análise de sua resistência a tratamentos. Essa pesquisa revelou a agressividade do câncer, demonstrando o duplo papel do biobanco: o armazenamento de amostras e a realização de experimentações inviáveis em humanos.
Pesquisadores como Cleber Machado, que estuda biomarcadores em sarcomas, destacam a importância do acervo. “Se não fosse o biobanco, meu projeto não existiria”, afirma. A vastidão de amostras permite o estudo de doenças raras que, ao serem analisadas ao longo de uma década, tornam-se passíveis de investigação.
Sustentabilidade e futuro da pesquisa
A captação de recursos para o biobanco tem sido realizada por meio de editais públicos e doações privadas ao hospital filantrópico. Para o futuro, o diretor Bonald Cavalcante de Figueiredo vislumbra a sustentabilidade através da oferta de serviços com suas metodologias sofisticadas para outros centros menores, sem fins lucrativos. A diretora-geral do IPP, Ety Carneiro, reforça o compromisso do hospital com a medicina translacional, onde a pesquisa se aplica diretamente ao cuidado do paciente, viabilizada pela infraestrutura do biobanco.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe.
