Novo estudo em camundongos sugere que períodos de abstinência de álcool podem, paradoxalmente, elevar o risco de consumo compulsivo posterior. A pesquisa identificou mudanças na atividade de uma região cerebral específica, o núcleo do leito da estria terminal (BNST), que podem servir como um marcador para prever a vulnerabilidade à recaída.
Embora a abstinência seja geralmente associada a melhores resultados de saúde, a comunidade científica especula há tempos que as adaptações cerebrais durante a privação de substâncias poderiam, na verdade, aumentar a probabilidade de retorno ao uso. Para investigar essa hipótese, cientistas submeteram camundongos a um período de acesso voluntário ao álcool, seguido por uma abstinência forçada. Os resultados indicam que, para uma parcela dos animais, o desejo de beber pode ser intensificado após o período de restrição.
Um subgrupo de camundongos demonstrou desenvolver um padrão de consumo resistente à aversão, continuando a ingerir álcool mesmo quando este era deliberadamente tornado mais amargo com a adição de quinina. Esses mesmos animais consumiram quantidades ainda maiores da bebida amarga em comparação com aqueles que não passaram pela abstinência forçada, sugerindo que desafios fisiológicos associados à abstinência podem contribuir para recaídas no transtorno por uso de álcool.
Alterações no BNST como preditor de recaída
A pesquisa focou na atividade de neurônios em uma área cerebral conhecida como BNST, já implicada em sintomas de ansiedade e depressão associados ao transtorno por uso de álcool. Os cientistas observaram que camundongos abstinentes, ao serem reintroduzidos em um ambiente onde o álcool estava disponível, tentavam beber mesmo quando a substância havia sido substituída por água. Essas tentativas estavam diretamente ligadas à atividade no BNST.
Notavelmente, camundongos abstinentes que haviam desenvolvido tolerância ao álcool amargo apresentaram mais que o dobro da atividade no BNST em comparação com animais que não passaram pela abstinência. Mais intrigante ainda, essa atividade elevada no BNST foi detectada mesmo antes que os animais em abstinência tivessem acesso ao álcool amargo. Essa descoberta sugere um potencial para identificar indivíduos em risco de recaída através da monitorização da atividade nesta região cerebral quando expostos a gatilhos relacionados ao álcool.
O impacto do transtorno por uso de álcool e os próximos passos da pesquisa
O uso indevido de álcool representa um grave problema de saúde pública global. Nos Estados Unidos, as mortes associadas ao consumo de álcool superam em muito as mortes por opioides, apesar da abstinência ser o pilar do tratamento para o transtorno por uso de álcool. Com mais de 80% dos americanos consumindo álcool em algum momento da vida e cerca de 10% desenvolvendo o transtorno, a necessidade de estratégias eficazes de prevenção e tratamento é urgente.
Atualmente, os profissionais de saúde enfrentam dificuldades em prever quais indivíduos desenvolverão o transtorno. Apesar da existência de tratamentos aprovados, os índices de diagnóstico têm aumentado significativamente. A pesquisa sobre o BNST oferece uma nova esperança para o desenvolvimento de métodos de triagem mais precisos, permitindo a identificação precoce de pessoas em risco e a otimização da orientação para tratamento.
Embora o papel exato do BNST no transtorno por uso de álcool e os mecanismos por trás do aumento de sua atividade ainda não sejam totalmente compreendidos, novas ferramentas de neurociência estão sendo empregadas para manipular e estudar a atividade neuronal específica. Pesquisas em andamento buscam desvendar as populações celulares dentro do BNST que codificam essa atividade, visando identificar novos alvos terapêuticos. Paralelamente, estudos em humanos estão em andamento para verificar se os achados em camundongos se replicam em pessoas, o que poderia levar a testes clínicos para o uso do BNST como ferramenta de triagem.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados em estudo publicado originalmente em The Conversation.
