O drible que se tornou alvo de crítica
O pênalti perdido por Kylian Mbappé na vitória da França sobre o Marrocos, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, pode ter sido rapidamente ofuscado pelo resultado do jogo, mas reacendeu um antigo debate no futebol: a “paradinha” nas cobranças de pênalti se tornou um problema?
A técnica, que consiste em desacelerar ou fazer uma finta durante a corrida para confundir o goleiro, é vista por muitos tradicionalistas como um artifício que desrespeita a essência do jogo. Apesar de permitida pelas regras da FIFA, desde que não haja uma parada completa antes do chute, a “paradinha” tem gerado controvérsia, especialmente em um torneio onde a taxa de pênaltis desperdiçados já é uma das mais altas da história.
Nomes como John Aldridge, Hugo Sánchez e Pelé já utilizaram a “paradinha” em suas carreiras, mas a estratégia, que visa fazer o goleiro cair para o lado errado, tem mostrado um lado sombrio. Quando o arqueiro resiste à tentativa de ser enganado e espera o momento exato para pular, o cobrador pode se ver em desvantagem.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela BBC News Brasil.
Um Mundial de erros e defesas
Nesta Copa do Mundo de 2026, Mbappé se juntou a uma lista de estrelas que desperdiçaram cobranças após recorrerem à “paradinha”, incluindo Bruno Guimarães, Lionel Messi e Harry Kane. Dos 26 pênaltis cobrados com essa técnica no torneio, apenas 15 terminaram em gol, resultando em um aproveitamento de 57%. Em contraste, pênaltis cobrados sem a “paradinha” tiveram um índice de acerto de 68%.
O ex-jogador Ian Wright comentou que a cobrança com “paradinha” parece ter sido “decifrada”, com goleiros encontrando formas de neutralizá-la. No entanto, nem todos os jogadores que utilizaram a tática falharam. Marko Arnautovic, Neymar, Cristiano Ronaldo e o próprio Mbappé em outras ocasiões conseguiram converter seus pênaltis com a “paradinha”.
Goleiros maiores e mais preparados
De forma geral, a Copa do Mundo de 2026 tem sido desafiadora para os cobradores de pênalti. Cerca de 30% dos pênaltis marcados durante o tempo normal ou a prorrogação foram desperdiçados, o segundo maior índice desde 1966. Quando as disputas de pênaltis também são consideradas, o percentual de erros sobe para 35%, o pior registrado no período.
O ex-ponta escocês Pat Nevin atribui parte da dificuldade ao aumento do tamanho e da capacidade atlética dos goleiros modernos. “Se o goleiro pula para o lado certo, você precisa colocar a bola no canto com muita precisão e força – e, mesmo assim, ela ainda pode ser defendida”, explicou Nevin.
Além da evolução física dos goleiros, Nevin destaca o acesso a dados e análises. “Os goleiros têm acesso a muitos dados. Eles sabem como praticamente todos os cobradores costumam bater. Não há mais como esconder sua preferência”, disse. Essa constante batalha de informações e estratégias intensifica a pressão sobre os cobradores.
O fator VAR e a quebra de rotina
O pênalti de Mbappé contra o Marrocos também foi marcado por um longo intervalo entre a marcação e a cobrança, devido a uma checagem do VAR. Mais de três minutos se passaram, um tempo que, segundo o jornalista francês Julien Laurens, pode ter quebrado a rotina habitual do atacante e o desconcentrado.
“Foi um pênalti horrível. A rotina é muito importante no futebol. Aquela espera claramente desconcentrou Mbappé”, afirmou Laurens, que também elogiou o goleiro marroquino Yassine Bounou, considerado por ele um especialista em defender pênaltis.
O ex-volante Roy Keane criticou a demora imposta pelo VAR, argumentando que o tempo acaba favorecendo o goleiro. “O tempo é o inimigo do atacante. A vantagem acaba voltando para o goleiro”, disse. Ian Wright concordou, acrescentando que a espera prolongada pode levar o cobrador a duvidar de sua própria decisão.
Apesar do erro em 2026, Mbappé tem um histórico de 14 gols em 16 pênaltis pela seleção francesa e 50 gols em 62 cobranças por clubes. Contudo, o desempenho de Bounou, que defendeu duas cobranças e viu outras três serem desperdiçadas em Copas do Mundo, evidencia que os goleiros estão cada vez mais preparados para encarar os desafios dos cobradores, com ou sem “paradinha”.
