A capacidade de compreender números pode estar presente desde o nascimento, segundo investigações recentes.
A ideia de que a nossa compreensão de números, e a forma como os organizamos mentalmente, possa ser uma habilidade inata, ao invés de uma construção puramente cultural, tem ganhado força com base em estudos recentes. Pesquisadores da Universidade de Pádua, na Itália, investigaram essa hipótese trabalhando com bebês de poucas horas de vida, buscando minimizar a influência do ambiente e da cultura.
Tradicionalmente, no Ocidente, os números são representados em uma reta horizontal onde os valores aumentam da esquerda para a direita. Essa convenção coincide com o sentido de escrita em muitas culturas ocidentais. No entanto, culturas com escrita da direita para a esquerda, como a árabe, persa e hebraica, tendem a conceber a progressão numérica em sentido oposto. Essa divergência levanta a questão se a organização numérica está ligada à estrutura cerebral ou a um aprendizado cultural.
Para contornar a influência cultural, o estudo italiano focou em recém-nascidos com idades entre 12 e 117 horas. A metodologia envolveu a apresentação de imagens compostas por dois quadrados brancos, cada um contendo um número diferente de quadrados pretos menores. Em metade das apresentações, havia quatro quadrados pretos em cada quadrado branco; na outra metade, eram 36 quadrados pretos. Utilizando sensores para monitorar os movimentos oculares dos bebês, os pesquisadores observaram suas reações.
Os resultados indicaram que os bebês tendiam a direcionar o olhar mais para a esquerda quando expostos a um menor número de quadrados pretos (quatro) e mais para a direita quando expostos a um número maior (36). Os pesquisadores interpretam essa observação como evidência de que a noção de que os números aumentam da esquerda para a direita é inata, atribuindo-a à assimetria cerebral, especificamente ao fato de o hemisfério direito, que processa informações do olho esquerdo, ser ligeiramente maior que o esquerdo.
Debates e cautelas sobre as descobertas
Apesar do fascínio gerado pela pesquisa, as conclusões não são unanimidade. Alguns especialistas levantam a possibilidade de que os bebês não estejam reagindo ao número de elementos, mas sim à complexidade visual das figuras. Nesse cenário, o paradigma seria interpretado como uma tendência a perceber um aumento de complexidade, e não necessariamente de quantidade, da esquerda para a direita.
Outra ressalva importante diz respeito à capacidade de bebês tão jovens serem completamente alheios ao contexto cultural. Mesmo em poucas horas de vida, recém-nascidos estão em um ambiente que pode influenciá-los. A realização do estudo em uma maternidade italiana levanta a dúvida se resultados semelhantes seriam obtidos em contextos culturais distintos, como na Arábia Saudita, Irã ou Israel, onde as convenções de escrita e organização espacial diferem.
Ainda assim, a pesquisa é considerada fascinante pela possibilidade de analisar cientificamente aspectos fundamentais do funcionamento cerebral e pela viabilidade de extrair informações relevantes de sujeitos em uma fase tão inicial da vida. Um segundo estudo sobre o tema, com abordagens complementares, está previsto para ser discutido em breve.
As informações foram reunidas a partir de um estudo publicado pela Universidade de Pádua.
