A CVC Corp, outrora líder incontestável do setor de viagens no Brasil, atravessa um de seus momentos mais desafiadores, com suas ações desvalorizando impressionantes 97% desde 2019. Atualmente com valor de mercado inferior a R$ 1 bilhão, a companhia busca uma reestruturação em meio a um cenário de endividamento elevado, juros altos e uma transformação radical no comportamento dos consumidores.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Gazeta do Povo.
A crise que assola a CVC não pode ser atribuída a um único fator. Internamente, a empresa carrega o legado de distorções contábeis que vieram à tona em 2020, totalizando R$ 362,4 milhões e abalando significativamente a confiança dos investidores. No plano externo, a pandemia de COVID-19 impôs uma paralisação abrupta ao setor de turismo. Atualmente, o cenário econômico brasileiro, marcado pela alta taxa Selic, encarece o serviço da dívida, uma vez que os juros dos empréstimos se elevam. Adicionalmente, a volatilidade no preço do petróleo impacta diretamente o custo das passagens aéreas, corroendo a margem de lucro da companhia, mesmo em operações de venda de pacotes bem-sucedidas.
Mudança no perfil do consumidor e o desafio digital
A forma como as pessoas planejam suas viagens mudou drasticamente. Se antes o consumidor buscava uma loja física para detalhar cada aspecto de sua jornada com um vendedor, hoje a maioria das decisões é tomada através da tela de um smartphone. Essa digitalização acelerada impulsionou plataformas online e encontrou a CVC com um modelo de negócios excessivamente dependente de altos custos fixos, como a manutenção de lojas em shoppings. Especialistas apontam que o desafio para a empresa transcende a simples presença online; é preciso dialogar com as novas gerações, adaptando a apresentação de seus produtos para um público que nasceu imerso no mundo digital e valoriza a agilidade, sem, contudo, comprometer a confiança construída pela marca ao longo de décadas.
A estratégia ‘figital’ como caminho para a recuperação
Em resposta a esse novo panorama, a CVC tem investido na estratégia ‘figital’, uma fusão entre o físico e o digital. A proposta é utilizar canais digitais, como redes sociais e o próprio site da empresa, para atrair o cliente, e, em seguida, conduzi-lo para a conclusão da compra em uma loja física com o suporte de um agente. Aproximadamente 60% do fluxo nas lojas já se origina de interesses gerados previamente online. Além disso, a companhia tem reformulado o formato de suas unidades: em vez de lojas de grande porte em locais de alto custo, a aposta recai sobre franquias menores e quiosques, inclusive em cidades do interior. Essa abordagem visa reduzir os custos operacionais e diluir o risco do investimento entre a matriz e os franqueados.
Situação financeira e o impacto da Apex Partners
Apesar de ter gerado R$ 35,5 milhões em caixa no segundo trimestre de 2026, a CVC ainda reportou um prejuízo líquido de R$ 72,5 milhões. Esse resultado é reflexo do elevado custo da dívida, especialmente de títulos como debêntures, cujos juros atrelados ao CDI tornam o endividamento oneroso. Recentemente, o envolvimento da Apex Partners, uma gestora de fundos sob investigação, em vendas de parte de sua participação na CVC também exerceu pressão adicional sobre as ações da empresa. A gestão atual trabalha para demonstrar a solidez do rumo operacional, mas a recuperação financeira plena depende significativamente de uma eventual queda nas taxas de juros.
