A eficácia que esconde o perigo
O Brasil intensifica neste sábado (22) o Dia D da Campanha Nacional de Multivacinação, um esforço para atualizar a caderneta de vacinação de crianças e adolescentes. A iniciativa surge em um momento em que a própria eficácia das vacinas cria um desafio paradoxal: quanto mais sucesso elas alcançam em controlar doenças, menor se torna a percepção de risco na população. Doenças que um dia foram ameaças concretas, como sarampo, poliomielite e difteria, tornaram-se distantes para a maioria, levando a uma diminuição na urgência e na necessidade de se proteger.
Segundo a infectologista Rosana Ritchmann, membro do comitê de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a percepção de risco como fator crucial para a adesão à vacinação. “Se você não vê mais as doenças, a sua percepção de risco é muito baixa”, explica Ritchmann, destacando a dificuldade em dimensionar a gravidade de infecções quando não há histórias próximas de adoecimento, sequelas ou mortes.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde e declarações de especialistas em imunização.
O retorno do sarampo e a queda na cobertura vacinal
O sarampo serve como um alerta. Em 2016, o Brasil foi certificado pela eliminação da doença, um marco após décadas de vacinação. Contudo, a partir de 2018, o vírus retornou, impulsionado pela entrada de casos importados e, crucialmente, pela queda na cobertura vacinal. Em 2019, o país perdeu a certificação após mais de um ano de transmissão contínua. Entre 2018 e 2022, foram registrados mais de 39,8 mil casos, com um pico em 2019. Embora os números tenham caído drasticamente em anos recentes, o vírus voltou a circular com mais força em 2024, especialmente em São Paulo.
Paralelamente a esse cenário, a cobertura vacinal contra o sarampo sofreu um declínio significativo. Se em 2015 e 2016 mais de 95% da população havia tomado ao menos a primeira dose da vacina tríplice viral, esse índice caiu para 86% no ano seguinte e atingiu o menor patamar em 2020, com 80%. Akira Homma, assessor científico sênior do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos – Bio-Manguinhos/Fiocruz, enfatiza que, enquanto o agente infeccioso existir globalmente, a vacinação contínua é essencial para manter a proteção populacional e prevenir o ressurgimento de doenças.
A meta para o controle de doenças altamente transmissíveis como o sarampo é manter a cobertura vacinal em 95%. “Quanto maior a facilidade de transmissão de uma doença, maior é a cobertura vacinal necessária para que, de fato, tenha um país controlado, livre da entrada e da reintrodução desse vírus”, reforça Ritchmann.
Desinformação e o debate político sobre vacinas
O desaparecimento de doenças, por si só, não explica toda a hesitação vacinal. A confiança nas instituições e a percepção sobre a segurança e eficácia das vacinas são fatores determinantes. No entanto, o vácuo de informação ou a percepção de baixo risco podem ser preenchidos por desinformação. Nos últimos anos, a vacinação tem sido instrumentalizada em disputas políticas, ultrapassando o campo da saúde pública.
No Brasil, especialmente durante e após a pandemia de covid-19, figuras políticas e influenciadores têm questionado vacinas e políticas de imunização. Discursos que defendem a liberdade individual e a autonomia parental, por vezes contrariando leis, ganharam força. Exemplos recentes incluem declarações de políticos como Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, que expressaram dúvidas sobre esquemas vacinais e divulgaram desinformação. Essas manifestações, embora não representem toda a direita brasileira, ilustram como o tema se tornou pauta ideológica.
“A decisão de saúde pública, ela não deveria passar por posicionamentos políticos e ideológicos, isso é algo que não tem sentido. Tem que ser uma decisão baseada na ciência e em dados que temos acumulado ao longo do tempo”, ressalta Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). O desafio se estende a profissionais de saúde mais jovens, que podem ter pouca experiência prática com doenças controladas, necessitando de vigilância e treinamento contínuos.
Um fenômeno global
A onda de desinformação e o consequente aumento da oposição às vacinas não são exclusivos do Brasil. Nos Estados Unidos, o fenômeno também cresce, com a oposição às vacinas ganhando espaço no debate político. Como resultado, o país tem enfrentado surtos de doenças como o sarampo, que haviam sido controladas por anos. Em 2024, os EUA registraram mais casos de sarampo em seis meses do que em todo o ano anterior, com 44 dos 50 estados afetados, a maior alta em 35 anos.
O retorno de doenças controladas por décadas impõe um desafio adicional aos sistemas de saúde. A falta de familiaridade com os sintomas por parte de profissionais mais jovens exige protocolos de vigilância e notificação rigorosos. A rápida identificação de um caso suspeito é crucial, dada a alta capacidade de transmissão de vírus como o do sarampo, para evitar novas infecções e a reintrodução da doença em larga escala.
