A Nasa está prestes a lançar o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, um instrumento com origens surpreendentes no mundo da espionagem. O satélite, que tem seu lançamento previsto para o final deste mês, carrega em seu coração um espelho primário originalmente desenvolvido pelo Escritório Nacional de Reconhecimento (NRO) do Pentágono para satélites de monitoramento terrestre. Após o cancelamento do programa de espionagem devido a atrasos e estouros orçamentários, o NRO doou dois telescópios espaciais à Nasa em 2012, um dos quais é a base do Roman.
Essa origem inusitada explica em parte as capacidades únicas do Roman e o que o torna potencialmente o satélite astronômico mais produtivo já lançado. Com um espelho primário de 2,4 metros de diâmetro, similar ao do venerável Telescópio Espacial Hubble, o Roman foi projetado para capturar imagens de vastas porções do céu com uma eficiência notável.
Enquanto o Hubble, lançado em 1990, focava em áreas menores para captar detalhes de objetos distantes, o NRO visava um sistema capaz de monitorar a Terra com alta resolução, capturando não apenas o alvo principal, mas também seu entorno. Essa ambição se traduziu no Telescópio Roman, que herdou a capacidade de explorar uma área significativamente maior do céu. A câmera WFI (Wide Field Instrument) do Roman, por exemplo, cobrirá um campo de visão cerca de 140 vezes maior que a câmera WFC3 do Hubble, permitindo registrar uma quantidade colossal de dados a cada ano de operação.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela NASA e reportagens especializadas.
Um Legado para a Ciência
O nome do telescópio homenageia Nancy Grace Roman (1925-2018), astrônoma pioneira e primeira chefe de astronomia da Nasa, conhecida como a “mãe do Hubble” por seu papel fundamental no desenvolvimento do projeto. A escolha do nome é apropriada, dado que o novo telescópio compartilha uma característica central com seu antecessor.
Originalmente conhecido como Wfirst (Wide-Field Infrared Survey Telescope), o projeto, que enfrentou tentativas de cancelamento por parte de administrações anteriores, foi oficializado com o nome Roman em 2020. A Nasa investiu US$ 4,3 bilhões no projeto, incluindo a operação inicial de cinco anos, com expectativa de vida útil de pelo menos uma década.
Instrumentos de Ponta para Descobertas Cósmicas
Embora o espelho tenha sido uma herança do NRO, a Nasa foi responsável pelo desenvolvimento dos instrumentos científicos do Roman, considerados a parte mais crucial do telescópio. Além do WFI, que opera com 18 detectores de luz visível e infravermelha para capturar imagens e espectros, o Roman conta com o CGI (Coronagraph Instrument). Este dispositivo avançado é capaz de suprimir a luz de estrelas, permitindo a observação direta de planetas gigantes ao seu redor e abrindo caminhos para a eventual detecção de mundos rochosos.
O Roman será lançado em uma órbita ao redor de um ponto de Lagrange, a aproximadamente 1,5 milhão de quilômetros da Terra, uma região onde a interferência da luz terrestre é minimizada, similar à órbita do Telescópio Espacial James Webb.
Um Universo de Possibilidades
O telescópio foi concebido como um instrumento de uso geral, destinado a estudar uma vasta gama de fenômenos astronômicos, desde o Sistema Solar até as fronteiras mais distantes do universo. Seu amplo campo de visão permitirá que os astrônomos observem simultaneamente grandes áreas do céu com alta resolução, comparado a “olhar a árvore e a floresta toda de uma só vez”, segundo o astrônomo Cassio Barbosa.
O tempo de observação será alocado através de um processo competitivo, onde grupos de astrônomos de todo o mundo apresentarão propostas de pesquisa. O primeiro ciclo de observações já definido abrange diversas áreas da astronomia, com foco principal em galáxias, física estelar e exoplanetas. Além disso, o Roman realizará três projetos de varredura sistemática do céu, incluindo um para mapear o Universo em três dimensões, outro para observar eventos extragalácticos dinâmicos e um terceiro para estudar microlentes gravitacionais em direção ao centro da Via Láctea, um método promissor para a descoberta de exoplanetas.
Com a capacidade de gerar um volume massivo de dados, o Roman tem o potencial de se tornar o telescópio mais produtivo do mundo, superando o James Webb e o Hubble em termos de produção científica anual. O lançamento está programado para o final deste mês, a bordo de um foguete Falcon Heavy da SpaceX, em um voo contratado por US$ 255 milhões.
