El Niño acentua disparidade na preparação das capitais para emergências de saúde
El Niño acentua disparidade na preparação das capitais para emergências de saúde

El Niño acentua disparidade na preparação das capitais para emergências de saúde

O fenômeno climático severo já em curso expõe a fragilidade e a desigualdade na preparação das capitais brasileiras para enfrentar emergências sanitárias decorrentes de eventos extremos. Projeções da Fiocruz indicam um aumento de doenças respiratórias, arboviroses e agravamento de condições crônicas, mas a resposta das cidades varia significativamente. Um levantamento realizado pela Folha com as […]

Resumo

O fenômeno climático severo já em curso expõe a fragilidade e a desigualdade na preparação das capitais brasileiras para enfrentar emergências sanitárias decorrentes de eventos extremos. Projeções da Fiocruz indicam um aumento de doenças respiratórias, arboviroses e agravamento de condições crônicas, mas a resposta das cidades varia significativamente.

Um levantamento realizado pela Folha com as 26 capitais e o Distrito Federal revela que, apesar de algumas administrações possuírem protocolos e estruturas organizadas, a maioria das cidades ainda adota medidas fragmentadas, focadas principalmente em monitoramento climático e emissão de alertas. Diante desse cenário, a Fiocruz classifica o El Niño como uma emergência sanitária, devido à sua capacidade de desencadear tanto excesso de chuvas quanto calor extremo, cada um com impactos distintos e difusos na saúde pública.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Folha de S.Paulo.

Resposta desigual e desafios regionais

O principal desafio reside na natureza heterogênea dos impactos do El Niño, que pode simultaneamente favorecer secas em uma região e chuvas intensas em outra, dificultando a previsão de quais doenças terão maior incidência em cada local. Especialistas apontam para um aumento esperado de doenças respiratórias e arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. O calor extremo, por sua vez, agrava quadros de doenças cardiovasculares, condições alérgicas e outras doenças crônicas. A lista de impactos se estende a efeitos em sistemas nervosos e pode ser agravada em populações vulneráveis.

Inundações, por exemplo, aumentam o risco de leptospirose, hepatite A e diarreias, especialmente em áreas com saneamento básico precário. Ondas de calor exigem atenção redobrada para pessoas com diabetes e doenças respiratórias. Além do aumento da procura por atendimento, desastres climáticos frequentemente comprometem a própria infraestrutura de saúde, com unidades danificadas, dificuldades de acesso e interrupção de tratamentos contínuos. O Ministério da Saúde, segundo a reportagem, está desenvolvendo estruturas itinerantes para dar suporte a estados e municípios, com a meta de montar hospitais de campanha em até 12 horas após uma tragédia.

Cidades buscam adaptação com focos distintos

No levantamento, Rio de Janeiro e São Paulo destacaram-se pela integração entre monitoramento climático e resposta de saúde. O Rio de Janeiro mantém um protocolo para ondas de calor desde 2024, que classifica níveis de risco e orienta a população, além de ter treinado profissionais para atender casos relacionados ao calor extremo. São Paulo implementou nove tendas de resfriamento com oferta de água, frutas e proteção solar, e possui um comitê de crise para altas temperaturas, com um contingente de 1.500 profissionais para atuar durante chuvas intensas e ventanias.

Florianópolis informou ter reforçado estoques de medicamentos e insumos, preparado equipes e planeja um sistema de georreferenciamento de pacientes em tratamento contínuo, incluindo cerca de 250 pessoas em hemodiálise. Belo Horizonte desenvolveu um protocolo para identificar populações vulneráveis e afirmou ter capacidade de ampliar o atendimento em unidades de saúde.

Monitoramento e medidas pontuais predominam

A maioria das respostas das prefeituras concentra-se em monitoramento e preparação inicial. O Distrito Federal está desenvolvendo um plano específico para o El Niño, com monitoramento por drones para focos de dengue e alertas climáticos. Palmas mantém um painel que cruza indicadores ambientais com dados de saúde, emitindo boletins semanais e capacitando agentes comunitários. Cuiabá monitora doenças associadas à estiagem e queimadas, com reforço de recursos para a Defesa Civil no combate a incêndios. Campo Grande informou apenas que organiza ações para fortalecer a capacidade de resposta da rede diante de situações adversas.

Outras capitais, como Aracaju, relataram manutenção de estoques de medicamentos e avaliação de adaptações nas unidades. Maceió mencionou o desenvolvimento de ferramentas de comunicação digital e ampliação de acesso a especialidades, sem detalhar os mecanismos. João Pessoa afirmou não possuir um plano específico para o El Niño, mas indicou a possibilidade de ampliar a rede caso a demanda aumente.

Curitiba se destaca com reserva financeira

Curitiba foi a única capital a informar a existência de uma reserva financeira destinada ao enfrentamento de situações de calamidade. O Fundo de Recuperação e Estabilização Fiscal do município reúne atualmente R$ 327 milhões, que podem ser utilizados em crises econômicas, calamidades, desastres naturais ou emergências de saúde pública, mediante aprovação do prefeito e da Câmara Municipal. A cidade também receberá um Centro de Informação em Saúde e Clima, do Ministério da Saúde, estrutura que será replicada em Belo Horizonte e Cuiabá.

Especialistas alertam, contudo, que o planejamento deve ir além da criação de protocolos, considerando que os eventos climáticos extremos não afetam apenas a população, mas também a própria estrutura de saúde. A preservação do atendimento a pacientes crônicos é apontada como um dos maiores desafios em cenários de desastres climáticos que impactam a infraestrutura sanitária.

Tags:

Veja Também

Ausências de Lula e Flávio no debate viram munição para ataques sobre corrupção

Ausências de Lula e Flávio no debate viram munição para ataques sobre corrupção

Rede bilionária de lavagem de dinheiro ligada a tráfico e fraudes chega ao STF

Rede bilionária de lavagem de dinheiro ligada a tráfico e fraudes chega ao STF

Governo cria comissão para endurecer combate à pirataria e proteger comércio eletrônico

Governo cria comissão para endurecer combate à pirataria e proteger comércio eletrônico

Fux critica Receita Federal por focar em Pix e negligenciar setor de bebidas

Fux critica Receita Federal por focar em Pix e negligenciar setor de bebidas

Bolsa Família: Cadastros Unipessoais Disparam e Atingem 3,9 Milhões em Julho

Bolsa Família: Cadastros Unipessoais Disparam e Atingem 3,9 Milhões em Julho