Mensagens interceptadas no celular de uma empresária investigada por suspeitas de tráfico de influência apontam para uma atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que iria além da relação pessoal. Os diálogos sugerem que ele teria participado e até orientado reuniões com membros de diferentes escalões governamentais para supostas ações de lobby, além de ter tratado de negócios e tentado ampliar o acesso de empresários à administração federal.
As conversas, analisadas por investigadores, indicam que Lulinha mencionava encontros com pessoas de diversas pastas, o que é visto como um possível indício de sua participação em articulações envolvendo interesses empresariais e contatos dentro da estrutura do governo. Esses pontos são investigados em três inquéritos sigilosos no Supremo Tribunal Federal (STF), dois sob relatoria do ministro André Mendonça e um terceiro, que trata de possíveis vazamentos ilegais, com o ministro Flávio Dino.
Um dos episódios mencionados nas mensagens envolve o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Ele e Lulinha teriam viajado juntos a Portugal para conhecer um sistema de produção de cannabis medicinal, embora ambos neguem ter firmado contratos ou avançado em sociedades. As tratativas de Antunes com o Ministério da Saúde foram interrompidas após a Operação Sem Desconto, que o apontou como operador em um esquema de fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas. Lulinha não é investigado nesta frente específica, mas sim nos inquéritos de suspeita de tráfico de influência.
As informações foram reveladas pelo Metrópoles e confirmadas pela Gazeta do Povo. Para os investigadores, o conteúdo das mensagens é relevante para esclarecer o papel de Lulinha na relação entre a lobista Roberta Luchsinger e pessoas interessadas em fazer negócios com o governo.
Articulação com nomes do governo
Em um diálogo atribuído a março de 2024, Lulinha teria relatado a Roberta Luchsinger sobre reuniões com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, e Swedenberger Barbosa, o Berger, que ocupava a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde. Um ano antes, em julho de 2023, Lulinha teria pedido a Roberta que convidasse Carlos Eduardo Gabas, ex-ministro da Previdência, para um encontro na Bahia. Na sequência, Lulinha teria solicitado a emissão de uma nota fiscal no valor de aproximadamente R$ 150 mil para o empresário Cleber Ribas, o que foi confirmado por Roberta.
Cleber Ribas é empresário ligado à 3Structure IT, empresa que possui contratos com o governo federal somando quase R$ 86 milhões, incluindo um acordo de mais de R$ 42 milhões com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. A defesa de Ribas afirma que os pagamentos à empresa de Roberta foram legítimos e que a relação com Lulinha é estritamente pessoal, sem vínculo profissional ou comercial.
Suspeitas e investigações em curso
A Polícia Federal (PF) trabalha com a interpretação de que presentes, pagamentos de contas e outras despesas supostamente custeadas por Roberta poderiam ter sido usados para obter acesso e influência junto a pessoas próximas ao gabinete da presidência. Essa hipótese, no entanto, ainda depende da análise integral dos documentos e mensagens apreendidas. A PF também considera que as mensagens revelam uma proximidade entre Roberta e pessoas ligadas ao governo maior do que a apresentada anteriormente.
Outro nome que surge nas conversas é Fernando Bittar, que teria utilizado o nome de Lulinha para tentar fechar um negócio na Telebras, segundo afirmação de Roberta. Lulinha teria questionado se a informação havia sido desmentida, ao que Roberta respondeu afirmativamente, ressaltando que não faria negócios com Bittar caso ele tratasse diretamente com o presidente da estatal. Investigadores veem esse episódio como mais um indício da atuação de Roberta em negociações envolvendo o setor público.
As mensagens também fazem referência a repasses de aproximadamente R$ 1,5 milhão atribuídos ao “Careca do INSS” a Roberta. Em uma transferência, Antunes teria mencionado que parte do dinheiro seria destinada ao “filho do rapaz”, expressão que investigadores avaliam como possível referência a Lulinha, que nega qualquer relação. O presidente Lula tem declarado que seu filho deve se defender e responder por seus atos, caso comprovada alguma irregularidade.
Defesas contestam e alertam para vazamentos
A defesa de Lulinha contesta a interpretação das mensagens, alegando que são fragmentos sigilosos fora de contexto e questionando a origem e integridade do material. Os advogados afirmam confiar na investigação e pedem apuração sobre eventual vazamento de informações sigilosas por agentes públicos, argumentando que Lulinha reside na Espanha e atua na iniciativa privada, sem vínculo com o governo brasileiro. Quebras de sigilo fiscal e bancário não teriam encontrado irregularidades.
A defesa de Roberta Luchsinger optou por não comentar, alegando sigilo no inquérito. As defesas de Marcola e Cleber Ribas também não responderam ou afirmaram não poder comentar mensagens às quais não tiveram acesso integral. A defesa de Ribas reitera a natureza pessoal da relação com Lulinha e a transparência dos contratos da 3Structure com o governo.
Internamente, a PF trata o suposto vazamento das conversas como grave e objeto de apuração. Para os investigadores, as mensagens indicam que Lulinha tinha conhecimento das atividades empresariais de Roberta e participava de conversas relacionadas a negócios e reuniões com figuras relevantes do governo. O desafio agora é determinar se essa proximidade configurava relações pessoais ou uma atuação organizada para influenciar decisões e favorecer interesses empresariais na administração pública. A investigação busca estabelecer o contexto completo das conversas, a finalidade de pagamentos e a existência de contrapartidas entre articulações e contratos governamentais.
Os três inquéritos contra Lulinha no STF apuram suspeitas de tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, relacionados a negociações com o Ministério da Saúde, a Dataprev e contratos de tecnologia. A investigação também examina informações sobre possíveis vazamentos seletivos de dados sigilosos.
