A crescente dependência de ferramentas de inteligência artificial levanta preocupações sobre seus efeitos a longo prazo na cognição humana.
Desde a invenção da roda até a chegada da inteligência artificial generativa, a humanidade tem desenvolvido ferramentas para otimizar suas tarefas e resolver problemas. A velocidade desses avanços, no entanto, tem se tornado cada vez mais vertiginosa, e a integração dessas tecnologias em nosso cotidiano é tão profunda que elas se tornam extensões de nossas próprias capacidades. Ferramentas como o ChatGPT, capazes de realizar desde cálculos complexos até a criação de narrativas, podem ser acessadas com um simples comando. Essa facilidade, contudo, tem gerado um debate crescente entre cientistas, clínicos e educadores sobre o impacto que essa delegação cognitiva pode ter na mente humana.
Um estudo recente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) buscou investigar justamente essa questão, analisando a atividade cerebral de jovens enquanto utilizavam o ChatGPT, o Google ou apenas suas próprias mentes para redigir textos. Os resultados preliminares indicaram que os participantes que recorreram ao ChatGPT apresentaram um desempenho inferior em termos neuronais, linguísticos e na qualidade do texto produzido. Além disso, relataram menor conexão com as ideias e pior memória sobre o conteúdo gerado. Os pesquisadores do MIT sugeriram que o uso repetitivo dessas ferramentas pode substituir o esforço cognitivo necessário para o pensamento independente, potencialmente levando a um acúmulo de “dívida cognitiva”, com custos cerebrais a longo prazo.
A repercussão desses achados foi ampla, com diversos meios de comunicação interpretando-os como uma confirmação de que o uso da IA inevitavelmente levaria a uma perda progressiva de capacidades mentais. No entanto, a comunidade científica aponta que as evidências empíricas ainda são limitadas e que a maioria dos artigos publicados aborda o tema de forma teórica ou normativa, propondo estratégias de prevenção. A complexidade do fenômeno exige uma análise mais aprofundada, que considere os motivos pelos quais recorremos a essas ferramentas.
Entendendo a delegação cognitiva e seus motivos
Pesquisadores como Evan Risko e Sam Gilbert já haviam desenvolvido modelos para explicar por que optamos por sistemas externos em vez de utilizar nosso próprio cérebro. Eles destacam que o impacto cognitivo da delegação não é intrinsecamente negativo e depende dos objetivos que buscamos. Podemos usar o ChatGPT para evitar um esforço percebido como excessivo, ou porque acreditamos que ele pode aprimorar nosso desempenho e nos oferecer novas perspectivas. Por exemplo, alguém pode usar a IA para auxiliar na escrita de um texto por se sentir inseguro com suas próprias habilidades, ou para comparar ideias e refinar seu trabalho.
Nesse sentido, a questão fundamental não é apenas se delegamos uma tarefa, mas por que o fazemos e o que acontece com os recursos cognitivos que são, supostamente, economizados. A energia e o tempo poupados são reinvestidos em novas aprendizagens ou simplesmente levam à divagação mental? Estudos anteriores sobre o uso do Google, por exemplo, demonstraram que quando a ferramenta é utilizada para potencializar o aprendizado – como saber onde encontrar informações relevantes –, a habilidade na tarefa pode ser aprimorada. Um padrão semelhante pode ser observado com a IA: utilizá-la como um parceiro de diálogo, para explorar conceitos ou aprimorar o treinamento cognitivo, em vez de apenas buscar respostas prontas, pode fortalecer a aprendizagem estratégica.
Potencial para aprendizado estratégico e os próximos passos
O próprio estudo do MIT oferece nuances importantes. Em uma sessão de acompanhamento, os participantes que haviam utilizado o ChatGPT e foram impedidos de fazê-lo, enquanto os outros grupos tiveram acesso à IA, continuaram a apresentar menor atividade cerebral e desempenho inferior. Em contrapartida, os que usaram o Google ou seu próprio cérebro, e depois tiveram acesso à IA, mostraram melhorias. Isso sugere que a IA pode, sim, trazer benefícios quando integrada de forma a potencializar processos mentais como atenção e memória, por exemplo, ao dialogar com as sugestões da ferramenta.
Portanto, a conclusão de que o uso da IA gera uma dívida cognitiva generalizada pode ser prematura. A chave parece residir na forma como essas ferramentas são empregadas, especialmente no contexto educacional. É crucial definir quais tarefas se beneficiam da automação e quais atividades, mais significativas, podem ser enriquecidas com o tempo e o esforço poupados. A “dívida cognitiva” é uma possibilidade real, mas ainda incerta, e estamos longe de compreender totalmente como a IA afeta nossas capacidades mentais a longo prazo. A análise criteriosa de como e para que utilizamos essas tecnologias é fundamental para evitar interpretações apocalípticas e para aproveitar seu potencial de forma construtiva.
As informações apresentadas foram compiladas a partir de dados divulgados pelo The Conversation.
