O Legado Radioativo de Marie Curie no Brasil
Há um século, a visita de Marie Curie e de sua filha, Irène Joliot-Curie, ao Brasil marcou um capítulo importante na história científica do país. Em 1926, durante uma estadia de 44 dias que incluiu conferências, visitas a autoridades e percorrendo diversas cidades, Marie Curie presenteou o Brasil com um conjunto de agulhas contendo sais de rádio-226. O material foi destinado ao recém-formado Instituto do Radium em Belo Horizonte (atual Hospital Borges da Costa, ligado ao Hospital das Clínicas da UFMG), com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento da radioterapia.
Essas agulhas, semelhantes a agulhas de costura, foram utilizadas na braquiterapia, técnica que consiste em aproximar fontes radioativas do tumor para tratá-lo. O Instituto do Radium foi pioneiro no Brasil na aplicação deste procedimento, também conhecido como curieterapia. No entanto, as agulhas originais não possuíam identificação detalhada, e seu uso, embora inovador para a época, apresentava riscos significativos para a equipe médica e os pacientes devido à exposição contínua à radiação.
As informações sobre a visita e a doação foram registradas em jornais e publicações acadêmicas da época, detalhando a passagem das renomadas cientistas pelo país. Marie Curie, detentora de dois Prêmios Nobel (Física e Química), e sua filha Irène, posteriormente também laureada com o Nobel de Química, deixaram uma marca indelével na comunidade científica brasileira. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) e pelo Instituto de Pesquisas Energia Nuclear (Ipen).
Um Passado de Risco, Um Futuro de Esperança
O rádio-226, embora fundamental para os avanços iniciais da radioterapia, carrega consigo desafios. O decaimento desse elemento pode gerar radônio, um gás altamente contaminante. Para mitigar os riscos de vazamento e contaminação, as fontes de rádio eram seladas no século passado. Contudo, a pressão interna gerada pelo gás podia causar fissuras, aumentando o perigo para médicos e pacientes.
Com o passar das décadas, o uso dessas fontes radioativas mais antigas foi gradualmente substituído por tecnologias mais seguras e com menor tempo de vida, que são expostas apenas durante o tratamento. No Brasil, após o grave acidente com césio-137 em Goiânia nos anos 1990, houve um esforço sistemático para recolher e gerenciar fontes radioativas obsoletas. As agulhas doadas por Marie Curie, acondicionadas em tubos de chumbo e concreto, foram mantidas na sede do CDTN em Belo Horizonte como rejeito.
Nova Parceria Científica com os Estados Unidos
O cenário mudou no início dos anos 2000, quando se descobriu o alto potencial do rádio-226 para a produção de actínio. Este elemento tem se mostrado promissor no tratamento de tumores agressivos e metastáticos que não respondem bem aos tratamentos radioterápicos convencionais, apresentando baixo risco. Diante dessa descoberta, o Brasil foi convocado a participar do processo de reprocessamento do material.
Em 2023, em uma reunião com a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), o Brasil ofereceu seu estoque de rádio, incluindo as agulhas de Marie Curie, para novas parcerias tecnológicas. Foi selado um acordo entre a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), representada pelo CDTN e pelo Ipen, e a farmacêutica americana Niowave. O acordo prevê que a Niowave produzirá actínio a partir do rádio puro por três anos. Em contrapartida, a empresa oferecerá treinamento a cientistas brasileiros e enviará doses de actínio para estudos no Ipen.
A diretora do Ipen, Isolda Costa, destacou a importância da parceria, transformando o que antes era considerado um passivo ambiental em uma oportunidade de avanço na saúde, tecnologia e radiofarmácia. As agulhas doadas por Marie Curie, após cem anos, retornarão ao país em um novo formato, prontas para continuar contribuindo para a ciência nacional e a busca por tratamentos mais eficazes contra o câncer. O físico Ildeu de Castro Moreira, da UFRJ, ressalta que o maior legado de Marie Curie ao Brasil foi, além da doação material, o estímulo à pesquisa e ao protagonismo feminino na ciência.
