A esquerda ocidental parece atravessar um momento de reavaliação estratégica, marcado por recuos e novas abordagens discursivas. Figuras públicas e movimentos políticos sinalizam uma transição de pautas identitárias extremas para um foco mais pragmático e universal, enquanto outras vertentes radicalizam em táticas digitais.
As recentes declarações do cantor Nando Reis, que anunciou sua decisão de se afastar de debates políticos após enfrentar prejuízos comerciais e boicotes, e do ator Wagner Moura, que classificou os “exageros do identitarismo” como “fascismo de esquerda” e expressou cansaço com o ódio direcionado a ele, podem indicar mais do que coincidências isoladas. Esses episódios, somados a movimentos observados no cenário político internacional e nacional, sugerem uma crise em torno do chamado “wokismo” e um possível realinhamento dentro do espectro progressista.
Nando Reis afirmou que falar de política “é completamente inútil. Ficar falando com quem não quer ouvir”, enquanto Wagner Moura, em entrevista a Pedro Bial, lamentou ser “tão odiado” e defendeu o diálogo com a direita, criticando a polarização como a “maior ameaça” à democracia. Embora esses recuos não impliquem abandono de convicções, eles podem ser interpretados como movimentos estratégicos em resposta a um cenário que se mostra menos receptivo a discursos radicais e identitários exacerbados.
As informações foram reunidas a partir de declarações e análises divulgadas pelo UOL, ABC News e outras fontes jornalísticas.
O “Woke 1” em xeque e a gestação do “Woke 2.0”
Nos Estados Unidos, a própria Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), outrora um ícone do ativismo radical, validou a expressão “O Woke 1 foi uma loucura”, referindo-se ao período entre 2020 e 2024, caracterizado por um “moralismo progressista” intenso, “identitarismo performático”, “patrulhas linguísticas” e slogans como “Defund the police”. A percepção de que essa postura criou um abismo entre a agenda progressista e o eleitor comum parece ter impulsionado um movimento de “recall” ideológico.
A declaração de AOC veio em resposta a posições antigas de uma colega de partido sobre abolir a polícia e prisões. Independentemente de ser oportunismo ou não, o abandono do “Woke 1” sugere a construção de um “Woke 2.0”. Este novo modelo, segundo análises, busca maior pragmatismo eleitoral, abandonando o tom professoral e temas de nicho em favor de pautas materiais e universais como inflação, custo de vida, moradia e saúde pública, embora a diversidade permaneça na agenda.
Reflexos no Brasil e a dualidade da esquerda
No Brasil, o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), frequentemente associado ao “wokismo”, tem direcionado seu foco para outras questões, como a PEC da jornada de trabalho 6×1. Além disso, a deputada Duda Salabert (Psol) manifestou-se contra uma decisão judicial que condenou uma influenciadora por falas transfóbicas contra ela, argumentando que tais decisões podem gerar efeitos contrários ao pretendido. Esses exemplos reforçam a ideia de um movimento em busca de um diálogo mais amplo e menos polarizado.
Nesse contexto, o silêncio estratégico de Nando Reis e o cansaço verbalizado por Wagner Moura ganham sentido como uma tentativa de reduzir o vocabulário de nicho e o ativismo explícito, buscando alcançar um público maior. Embora possam ser reflexos de um esgotamento pessoal, essas atitudes servem a uma agenda pragmática e eleitoreira.
O “Dark Woke” e a radicalização nas redes
Paralelamente, emerge nas redes sociais o chamado “Dark Woke”, uma militância mais jovem que adota táticas de “guerrilha digital” contra a extrema-direita, utilizando ironia ácida, memes e deboche. Essa vertente não busca “educar”, mas sim ridicularizar o adversário.
Em termos eleitorais, observa-se um movimento semelhante, exemplificado pela ascensão de figuras como o prefeito de Nova York, Zohran Mandani, e a vitória de Abdul El-Sayed nas primárias democratas para o Senado em Michigan. El-Sayed, em sua campanha, manteve um discurso assumidamente progressista, com críticas contundentes e defesa de pautas universais, embora tenha derrotado uma candidata centrista.
No Brasil, figuras como o influenciador Jones Manoel, que evitou condenar estupros cometidos pelo Hamas, e o deputado estadual Renato Freitas (PT), conhecido por seu radicalismo, também representam essa vertente mais assertiva.
Eleições de 2026 como termômetro
A esquerda ocidental parece caminhar em direções opostas: uma busca o pragmatismo eleitoral, enquanto outra radicaliza suas táticas. Essa dualidade, conhecida como “estratégia das tesouras”, onde alas moderadas e radicais parecem opostas, mas convergem para um objetivo comum, pode ser a dinâmica que definirá o futuro do movimento.
As eleições brasileiras e americanas de 2026 são apontadas como a provável data de nascimento do “Woke 2.0”. Os números atuais sugerem um dilema: o pragmatismo engaja menos a base, enquanto o radicalismo sem filtro afasta eleitores indecisos. A vitória de El-Sayed em Michigan, por margem apertada, levanta dúvidas sobre sua capacidade de replicar o desempenho em um eleitorado mais amplo e menos ideológico. O resultado em novembro nos EUA e as eleições brasileiras de 2026 indicarão se a esquerda optará por uma abordagem mais cautelosa e agregadora ou manterá um discurso radicalizado, mas com menor alcance.
