Metade das crianças grávidas com menos de 14 anos não tem acesso ao aborto legal, aponta pesquisa
Metade das crianças grávidas com menos de 14 anos não tem acesso ao aborto legal, aponta pesquisa

Metade das crianças grávidas com menos de 14 anos não tem acesso ao aborto legal, aponta pesquisa

Falhas no acesso a direitos reprodutivos deixam meninas grávidas sem opção de aborto legal Uma pesquisa recente aponta que metade das meninas grávidas com menos de 14 anos não tem a opção de interromper legalmente a gestação oferecida pelos serviços de saúde. O estudo, divulgado em julho pela ONG Plan International, entrevistou mais de 1.500 […]

Resumo

Falhas no acesso a direitos reprodutivos deixam meninas grávidas sem opção de aborto legal

Uma pesquisa recente aponta que metade das meninas grávidas com menos de 14 anos não tem a opção de interromper legalmente a gestação oferecida pelos serviços de saúde. O estudo, divulgado em julho pela ONG Plan International, entrevistou mais de 1.500 mulheres entre 19 e 29 anos, das quais 35% engravidaram na infância ou adolescência. A dificuldade de acesso ao aborto legal, mesmo em casos previstos pela legislação brasileira como estupro de vulnerável, revela um cenário de violação de direitos reprodutivos.

A legislação brasileira permite o aborto em três situações: risco à vida da gestante, gravidez resultante de estupro e anencefalia fetal. No entanto, qualquer relação sexual com uma criança menor de 14 anos é legalmente considerada estupro de vulnerável, o que deveria garantir o direito à interrupção da gravidez. Contudo, especialistas e pesquisas indicam que muitas dessas meninas desconhecem seus direitos ou enfrentam obstáculos significativos para exercê-los.

Shisleni de Oliveira, coordenadora de projetos do Vivas, organização que auxilia mulheres no acesso ao aborto legal, relatou o caso de uma menina de 13 anos em São Paulo cujo procedimento foi negado em um hospital municipal. A justificativa médica para a recusa envolvia a discrepância entre a data da relação sexual e a data da concepção estimada por ultrassom, um argumento considerado irrelevante pela equipe do Vivas, dada a natureza do crime de estupro de vulnerável.

A falta de regulamentação clara sobre quais serviços devem oferecer o aborto legal e como fazê-lo contribui para a dificuldade, segundo a defensora pública Tatiana Bias Fortes. Ela ressalta que o alto número de adolescentes que se tornam mães sugere que o aborto legal não é amplamente oferecido como alternativa, apesar de reconhecer que nem todas optariam pela interrupção.

Barreiras informacionais e morais dificultam o acesso

A falta de informação sobre direitos reprodutivos é um dos principais entraves. Dados do Observatório Criança Não é Mãe indicam que, por dia, 45 crianças entre 9 e 14 anos dão à luz no Brasil, sendo a maioria negra. Essas meninas, segundo a Plan International, têm menor acesso à educação sexual e desconhecem onde obter contraceptivos gratuitos.

O estudo da Plan International também aponta que o diálogo familiar sobre sexualidade é marcado pelo silêncio ou controle moral. Nos serviços de saúde, muitas meninas relatam discriminação e falta de acolhimento por parte dos profissionais. Paula Alegria, assessora da Plan International, critica a falha da sociedade em prevenir a violência sexual contra crianças e em oferecer respostas adequadas, o que resulta em experiências torturantes para as vítimas.

A Organização das Nações Unidas (ONU) considera tortura forçar crianças a levar adiante uma gravidez. A falta de educação sexual, estigmatizada por setores conservadores, perpetua o ciclo de violência. Alegria observa que, mesmo quando o direito ao aborto é comunicado, muitas vezes é feito de forma desencorajadora, e a rede de proteção precisa se esforçar para encontrar serviços de saúde que realizem o procedimento em crianças vítimas de estupro.

Resistências e desafios na rede de saúde

A interrupção gestacional em crianças e adolescentes, mesmo nos casos legais, enfrenta maiores resistências. Estudos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) mostram que cerca de 40% das crianças brasileiras com até 14 anos grávidas após violência sexual não conseguem iniciar o pré-natal no tempo ideal. Um percentual alarmante, 28,3%, chega aos serviços de saúde com mais de 22 semanas de gestação, o dobro da proporção observada em adolescentes em geral.

Embora a lei não estabeleça um limite de idade gestacional para o aborto legal, o Conselho Federal de Medicina (CFM) recomenda o limite de 22 semanas. A dificuldade em encontrar serviços para interrupções tardias, aliada à logística de deslocamento para outras cidades e à falta de envolvimento de órgãos como o Conselho Tutelar, agrava a situação.

A recente derrubada de uma resolução do Conanda pelo Congresso Nacional, que visava justamente estruturar o acolhimento a crianças vítimas de violência sexual, incluindo informações sobre aborto legal e encaminhamento psicológico, é vista como um retrocesso. Essa resolução detalhava as etapas de acolhimento, desde o encaminhamento para o aborto legal até o suporte psicológico e o papel dos conselhos tutelares, criando uma estrutura nacional de serviço que agora está desarticulada.

O ciclo de violência se estende por toda a vida dessas meninas. O estudo “Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil” revela que elas têm maior probabilidade de não concluir o ensino médio, perder oportunidades de trabalho, casar precocemente e serem vítimas de violência doméstica, evidenciando as profundas consequências sociais e pessoais de não terem seus direitos reprodutivos garantidos.

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