A medicina moderna, apesar de seus avanços, ainda carece de um conhecimento profundo sobre o corpo feminino. A ginecologista e pesquisadora Stephani Caser destaca que a histórica sub-representação de mulheres em estudos clínicos é a principal causa para as lacunas no diagnóstico e tratamento de diversas condições de saúde que afetam o público feminino.
Durante décadas, a ciência médica baseou grande parte de suas pesquisas em modelos masculinos. Ciclos menstruais, flutuações hormonais e a possibilidade de gravidez eram considerados fatores que poderiam aumentar a variabilidade e os custos dos estudos, levando à exclusão de mulheres das fases iniciais de pesquisas. Essa abordagem, segundo Caser, negligenciou as particularidades do corpo feminino, cujos sintomas de doenças e respostas a tratamentos podem diferir significativamente dos masculinos.
Um exemplo claro dessa disparidade é o infarto. Em mulheres, os sintomas podem se manifestar de forma atípica, distanciando-se da clássica dor no peito, o que pode retardar o reconhecimento e o início do tratamento. A Sociedade Brasileira de Cardiologia, em posicionamento de 2025, já alertava para a contínua sub-representação feminina em ensaios clínicos de doenças cardiovasculares e cardiometabólicas, com recomendações frequentemente baseadas em evidências extrapoladas de estudos majoritariamente masculinos.
A trajetória dessa exclusão remonta a orientações como a do FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos em 1977, que recomendava a exclusão de mulheres em idade fértil das fases iniciais de testes de medicamentos, visando proteger possíveis fetos. Embora essa política tenha sido revogada em 1993, com a publicação de diretrizes para avaliar diferenças de gênero na resposta a medicamentos, as lacunas persistiram. O problema se estendia à pesquisa pré-clínica, onde o sexo dos modelos biológicos nem sempre era considerado uma variável relevante.
Mudanças e desafios persistentes
A conscientização sobre a necessidade de incluir o sexo como variável biológica em pesquisas ganhou força. Em 2015, o NIH (National Institutes of Health) dos EUA passou a exigir essa consideração em estudos financiados pela agência, com a política entrando em vigor em 2016. No entanto, as disparidades no diagnóstico e tratamento continuam evidentes.
Um estudo dinamarquês publicado em 2019 na Nature Communications revelou que mulheres demoram, em média, quatro anos a mais para serem diagnosticadas com centenas de condições de saúde em comparação com homens. Essa demora é ainda maior em doenças metabólicas e câncer. No Brasil, a dificuldade em registrar queixas específicas, como dor menstrual ou pélvica, em prontuários médicos, segundo um estudo da Vital Strategies Brasil, também contribui para mascarar problemas de saúde feminina.
Outra pesquisa, publicada em junho deste ano no Canadian Medical Association Journal, indicou que mulheres com traumatismo cranioencefálico têm 26% menos chances de serem encaminhadas a centros especializados, mesmo com lesões de gravidade similar. Essas evidências sublinham a necessidade de uma revisão profunda nas práticas médicas e de pesquisa.
Novos focos e o futuro da saúde feminina
A ginecologia, campo diretamente afetado por essas lacunas, tem visto avanços na compreensão de doenças como a endometriose, que hoje é vista como uma condição complexa com fatores genéticos, imunológicos e hormonais, superando antigas hipóteses. A incorporação de testes moleculares para HPV no SUS em 2024 representa outro passo importante na melhoria do rastreamento do câncer de colo de útero.
Áreas como menopausa, síndrome dos ovários policísticos e microbioma vaginal têm recebido maior investimento e atenção. Stephani Caser acredita que essa expansão da pesquisa marca uma mudança de paradigma, tratando a saúde feminina não apenas sob a ótica reprodutiva, mas como um campo de investigação autônomo. A integração dessas novas compreensões na educação médica e nos protocolos clínicos é vista como essencial para antecipar diagnósticos e oferecer um cuidado mais eficaz.
Stephani Caser participa nesta quinta-feira (13) de uma mesa redonda sobre saúde feminina e tecnologia no festival SP2B (São Paulo Beyond Business), em São Paulo, discutindo como corrigir vieses históricos e fortalecer inovações em saúde feminina para um futuro mais justo e efetivo.
