A neurociência investiga as transformações cerebrais nos pais e o impacto na masculinidade.
A ciência tem dedicado atenção crescente às mudanças neurológicas que ocorrem no cérebro masculino com a chegada de um filho. Longe de ser um processo puramente hormonal como na gravidez feminina, a paternidade ativa, segundo a neurocientista americana Darby Saxbe, autora do livro ‘O Cérebro do Pai’, é moldada pela experiência e pelo envolvimento prático no cuidado com o bebê. Essa imersão na paternidade pode representar um caminho para um modelo de masculinidade mais saudável e complexo.
Em seu livro, que chega ao Brasil pela HarperCollins em setembro, Saxbe argumenta que, enquanto a maternidade é fortemente influenciada por alterações fisiológicas e hormonais durante a gestação, a paternidade é construída de maneira mais social e experiencial. A simples contribuição biológica para a concepção não é suficiente para desencadear as transformações. É a dedicação diária ao cuidado, a resposta às demandas do bebê e o investimento emocional que promovem as mudanças cerebrais nos homens.
A pesquisa de Saxbe surge em um momento em que os papéis de gênero tradicionais parecem ressurgir, e ela propõe que a paternidade ativa pode ser uma alternativa construtiva para a identidade masculina. Ao desafiar a noção de que masculinidade se resume à força, agressividade e provisão financeira, a paternidade oferece um espaço para o cuidado, a vulnerabilidade e a conexão afetiva, elementos que podem enriquecer a experiência masculina.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela HarperCollins Brasil e entrevista da autora à Folha de S.Paulo.
O Cérebro Paterno Sob a Lupa da Ciência
Estudos recentes, como um publicado na revista Nature em 2024, têm mapeado as alterações cerebrais em mulheres durante e após a gestação, revelando mudanças significativas na massa cinzenta e ajustes nas redes neurais voltadas ao cuidado. Saxbe, contudo, direcionou seu foco para os pais, buscando entender se o envolvimento paterno também desencadeia modificações neurológicas. Sua hipótese é que a plasticidade cerebral, impulsionada pela experiência, é o principal motor dessas transformações em homens.
“À medida que os homens passam mais tempo com seus bebês, vemos uma mudança mais profunda. O que nos mostra que é essa prática, esse tempo e esse investimento que estão sendo refletidos no cérebro”, explica Saxbe. Ela observa que o tempo de cuidado e as motivações dos pais são preditores da magnitude das alterações cerebrais.
Semelhanças e Diferenças nas Transformações Cerebrais
As mudanças cerebrais em pais e mães apresentam semelhanças, como alterações na rede de mentalização – que nos ajuda a compreender as intenções alheias – e na rede visual, fundamental para a percepção das expressões do bebê. Em ambos os sexos, ocorre uma perda de volume na massa cinzenta, que otimiza o funcionamento cerebral. No entanto, as alterações no cérebro paterno são geralmente de menor magnitude, mais variáveis e sutis.
Diferentemente das mães, cujas transformações cerebrais, especialmente no subcórtex – área ligada a instintos e emoções –, são mais profundas e facilmente identificáveis por inteligência artificial, os cérebros dos pais reagem de forma mais diretamente ligada ao tempo e à qualidade da experiência paterna. Em alguns casos, o volume cerebral pode diminuir levemente, enquanto em outros pode até aumentar, dependendo do engajamento.
Paternidade Ativa e Saúde Mental
Saxbe também aborda a questão da depressão pós-parto em homens, um tema ainda cercado por tabus. Ela reconhece a resistência inicial de algumas mães, que lutaram por anos pelo reconhecimento da saúde mental materna. Contudo, Saxbe defende que muitos fatores de risco para a depressão são compartilhados entre pais e mães, como preocupações financeiras, mudanças na identidade e a exaustão do cuidado. Para pais ativamente envolvidos, esses desafios podem levar a sentimentos semelhantes aos vivenciados pelas mães.
Apesar disso, a paternidade pode ser um fator protetor para a saúde mental masculina, conferindo um senso de propósito e conexão. Saxbe argumenta que a associação entre masculinidade e níveis elevados de testosterona, frequentemente ligada à agressividade, é uma visão simplificada. A testosterona flutua e se adapta a diferentes fases da vida, e sua manutenção excessivamente alta pode ter efeitos negativos na saúde. A paternidade, ao contrário, pode até reduzir esses níveis, promovendo um equilíbrio mais saudável.
Um Novo Horizonte para a Masculinidade
A licença-paternidade e políticas de apoio à paternidade ativa são vistas por Saxbe como ferramentas essenciais para consolidar um novo paradigma. Ela acredita que o papel do pai, historicamente importante, pode ser revitalizado e celebrado. Ao se envolverem no cuidado, os homens não apenas beneficiam seus filhos e parceiras, mas também enriquecem suas próprias vidas, encontrando propósito e fortalecendo laços sociais.
“Acho que podemos realmente celebrar isso pensando em como investir em políticas que realmente apoiem os homens a se posicionarem como pais. Vejo nisso uma posição muito pró-masculina, mas pró-masculina de uma forma que permita aos homens talvez ter uma vida plena, rica e mais complexa”, conclui a neurocientista. Essa visão desafia as noções tradicionais de masculinidade, propondo um modelo onde proteção, cuidado e liderança comunitária se entrelaçam, construindo uma identidade masculina mais completa e adaptada aos tempos atuais.
