O embate entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e a cúpula da Polícia Federal (PF) se intensificou ao longo de 2026, culminando em articulações nos bastidores do governo Lula para apaziguar a crise. As divergências centrais giram em torno da relatoria de investigações consideradas sensíveis pelo ministro, que já afetaram desde o caso Banco Master até inquéritos envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente da República.
As tensões começaram a eclodir em fevereiro, quando Mendonça assumiu a relatoria da investigação do Banco Master. Uma de suas primeiras ações foi restringir o acesso de informações do caso aos policiais diretamente envolvidos nas apurações. Essa decisão foi interpretada como uma tentativa de limitar a influência do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, impedindo-o de acessar dados de inquéritos sigilosos sem estar formalmente vinculado a eles. Na ocasião, Mendonça determinou que as autoridades administrativas deveriam “apenas prover os meios e recursos humanos e materiais necessários ao bom, celer e efetivo andamento das investigações”.
Inquéritos contra Lulinha ampliam a tensão
A situação se agravou com a abertura de inquéritos relacionados a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A PF protocolou um pedido de investigação à Presidência do STF como “fatos novos”, sem solicitar a autorização prévia de Mendonça, relator de investigações do INSS. A manobra visava, teoricamente, que um novo relator fosse sorteado para o caso. Contudo, o sistema eletrônico do STF manteve os dois primeiros pedidos contra o filho do presidente sob relatoria de Mendonça, enquanto um terceiro foi remetido ao ministro Flávio Dino. Essa movimentação gerou estranhamento na Corte, que a interpretou como uma tentativa de afastar o caso de Mendonça, quem tem expressado insatisfação com a lentidão das investigações do INSS. A PF, por sua vez, tem justificado a demora na análise do material apreendido com a alegada falta de pessoal, apesar de já ter trocado três vezes o delegado responsável pelas investigações.
PF aciona a AGU e Mendonça suspeita de vazamento
Diante das restrições e exigências impostas pelo ministro, a Polícia Federal buscou a Advocacia-Geral da União (AGU) para contestar decisões de André Mendonça no caso do INSS. A PF argumentou que as medidas poderiam interferir nas investigações e ferir a autonomia da instituição. Entre os pontos contestados estavam a restrição de acesso de informações pela cúpula da corporação, a exigência de comunicação sobre trocas de equipes e a remessa de dados brutos ao gabinete do relator. Em outra frente, Mendonça determinou o monitoramento do senador Jaques Wagner (PT-BA), alvo do caso Master, após suspeitar de risco de vazamento de informações. O ministro relatou ter recebido um pedido de audiência de um dos investigados no mesmo dia em que a PF solicitou autorizações para busca e apreensão e monitoramento, o que, segundo ele, “agudiza os riscos de vazamento indevido da operação”.
Articulação para conter a crise
Para mediar o conflito, o advogado-geral da União, Jorge Messias, tem atuado como interlocutor entre as partes. Nesta quinta-feira (6), uma reunião entre Mendonça, Messias e o ministro da Justiça, Wellington César Lima, foi considerada produtiva, resultando em um acordo de cooperação institucional. Lima teria ouvido as preocupações de Mendonça e se colocado à disposição para melhorar a comunicação entre o ministro e a PF, sugerindo inclusive um encontro presencial entre Mendonça e o diretor-geral Andrei Rodrigues.
Superintendentes da PF manifestam apoio ao diretor-geral
Apesar do esforço de pacificação, a tensão institucional permanece elevada. Mais cedo, os 27 superintendentes regionais da PF divulgaram uma nota oficial em apoio a Andrei Rodrigues. No comunicado, os chefes estaduais ressaltaram que a credibilidade da instituição se baseia na “atuação técnica e independente de seus servidores, orientada exclusivamente pelos fatos, pelas provas e pelos mecanismos de controle previstos no ordenamento jurídico”. A nota enfatizou que “a atividade investigativa da Polícia Federal não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao estrito cumprimento da lei”, defendendo a preservação da independência técnica e da autonomia administrativa como indispensáveis para a atuação da corporação.
