Adiamento do Diálogo em Caracas
O diálogo entre o governo interino da Venezuela e um grupo de opositores, que estava agendado para iniciar neste sábado (1º), foi postergado para a próxima semana. A iniciativa, impulsionada pelos Estados Unidos, busca estabelecer um calendário eleitoral para o país sul-americano. A decisão de adiar o encontro foi comunicada após conversas telefônicas entre os chefes das delegações: Jorge Rodríguez, pelo lado governista, e Dinorah Figuera, pela oposição.
Segundo Jorge Rodríguez, que preside o Parlamento venezuelano e é irmão da vice-presidente Delcy Rodríguez, o adiamento permitirá a consolidação das equipes de trabalho. “Compartilhamos a composição das delegações de trabalho e concordamos em realizar a primeira reunião presencial em Caracas na próxima semana. Também estabelecemos uma agenda de trabalho com metas claras e verificáveis”, declarou Rodríguez. As informações foram divulgadas por fontes oficiais do regime venezuelano.
Dinorah Figuera, por sua vez, confirmou o adiamento e detalhou os temas centrais a serem abordados no primeiro encontro: as consequências do terremoto ocorrido em 24 de junho, o fortalecimento da democracia e a garantia de direitos políticos. Em comunicado, Figuera agradeceu o apoio dos Estados Unidos e do Secretário de Estado Marco Rubio à transição venezuelana, classificando o início das negociações como um “novo capítulo na luta para construir um futuro digno para todos os venezuelanos”.
Nomes e Expectativas na Negociação
Ambas as partes divulgaram os nomes que comporão suas respectivas equipes de negociação. Pelo lado do regime, destaca-se a presença do ex-chanceler Jorge Arreaza, que recentemente liderou uma comissão para acompanhar a aplicação de uma lei de anistia para presos políticos. No entanto, a ausência de figuras proeminentes da oposição, como María Corina Machado e outros nomes de peso, gerou críticas. O ex-candidato presidencial Henrique Capriles manifestou em redes sociais que “uma negociação que exclua María Corina Machado e tudo o que ela representa está fadada ao fracasso”.
Figuera, que viveu no exílio, lidera a bancada opositora que obteve maioria na Assembleia Nacional em 2015, mas cuja legitimidade foi questionada pelo governo de Nicolás Maduro. Washington, contudo, reconhece a eleição de Figuera como legítima. O primeiro encontro público entre Figuera e Jorge Rodríguez ocorreu em junho, dias antes do terremoto que causou mais de 5.500 mortes.
Perspectivas e Desafios
A cientista política Colette Capriles, da Universidade Simón Bolívar, avalia que o diálogo se configura mais como uma “distribuição de tarefas” para a realização de eleições nos moldes desejados pelos Estados Unidos do que como uma negociação política profunda. “Não vejo estrutura adequada para uma negociação política real. Aparentemente, é para uma negociação eleitoral”, comentou Capriles, que participou de conversas em 2017. Ela também expressou ceticismo quanto à capacidade de um novo governo resolver os problemas estruturais da Venezuela, dada a consolidação das estruturas do regime.
María Corina Machado, principal líder da oposição venezuelana e laureada com o Prêmio Nobel da Paz, encontra-se fora do país desde dezembro de 2025. Apesar de sua ausência nas negociações, outros opositores a consideram uma figura essencial para um eventual acordo, e ela mesma declarou que não pretende dificultar o processo. A expectativa é que as conversas retomadas na próxima semana definam os próximos passos para a eventual convocação de eleições no país.
