O best-seller ‘Sapiens’ de Yuval Noah Harari, que se tornou uma referência global sobre a evolução humana, é alvo de críticas por sua abordagem simplificada e especulativa da história, que pode induzir a interpretações equivocadas.
A obra de Yuval Noah Harari, “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, conquistou um lugar de destaque no imaginário popular como um manual sobre a trajetória evolutiva do Homo sapiens. Contudo, uma análise mais aprofundada revela que o livro, apesar de sua vasta popularidade, apresenta fragilidades que o tornam um guia questionável para quem busca um entendimento preciso e atualizado sobre o tema. Quatro pontos principais emergem como preocupantes: a simplificação excessiva, a repetição de exemplos, a volúpia especulativa e uma notável ausência de referências e atualizações.
A necessidade de condensar milhões de anos de história em cerca de 400 páginas é, sem dúvida, um desafio. No entanto, Harari é acusado de cruzar a linha entre a necessária síntese e a simplificação que distorce a realidade. Essa tendência se conecta diretamente com a falta de citação de fontes, que dificulta a verificação das premissas apresentadas. A narrativa é estruturada em torno de três grandes revoluções – Cognitiva, Agrícola e Científica –, mas o livro raramente deixa claro que essa divisão, especialmente as duas primeiras, é uma hipótese e não um fato consumado.
A estrutura das “revoluções” e a falta de atualização
A visão de Harari, especialmente no que tange à distinção entre o Homo sapiens e outros hominínios, já apresentava sinais de defasagem na época de sua publicação original, no início da década passada. Com o avanço das pesquisas científicas, essa lacuna se tornou ainda mais evidente. O autor não demonstra esforço em atualizar o conteúdo, e a ausência de referências claras dificulta a identificação das bases de suas afirmações. A primeira metade do livro, por exemplo, ecoa “Armas, Germes e Aço” de Jared Diamond, um clássico dos anos 1990, mas essa conexão não é explicitada pelo autor.
Repetição e especulação sem limites
Outro ponto criticado é a repetição excessiva de exemplos para ilustrar conceitos que poderiam ser explicados de forma mais concisa, como “pessoa jurídica” ou “comunidades imaginárias”. Embora irritante, este é considerado um problema menor em comparação com a especulação desenfreada. No final da obra, Harari antecipa ideias de seu livro seguinte, “Homo Deus”, ao defender a possibilidade de uma longevidade “divina” para a humanidade. Essa projeção, contudo, carece de ponderação sobre os limites biológicos e ignora a necessidade de fundamentação científica, tornando-se mais um exercício de imaginação do que uma análise embasada.
Em suma, a obra de Harari, embora envolvente, falha em oferecer um panorama rigoroso e atualizado da evolução humana. O que é apresentado como novo frequentemente carece de solidez, e o que é factual muitas vezes não é apresentado de forma inovadora. Para leitores que buscam um entendimento aprofundado e cientificamente embasado, “Sapiens” deve ser lido com um olhar crítico e complementar a outras fontes mais confiáveis e atualizadas.
