A busca por ‘melhorar’ a qualidade do esperma ganha força online, mas especialistas alertam para riscos de práticas sem embasamento científico.
A preocupação com a fertilidade masculina tem levado um número crescente de homens a adotar rotinas e práticas com o objetivo de otimizar a qualidade do esperma. Influenciadores digitais, em plataformas como TikTok e Instagram, disseminam conselhos que vão desde o uso de bolsas de gelo nos testículos até doações de sangue para supostamente filtrar microplásticos. Essas recomendações, muitas vezes desprovidas de comprovação científica, surgem em um contexto de discussões globais sobre a queda nas taxas de natalidade e um aparente declínio na contagem e qualidade dos espermatozoides.
Um exemplo dessa tendência é Simon, um jovem de 28 anos que incorpora em seu dia a dia o uso de bolsas de gelo na virilha e saunas, acreditando que o calor ajuda a eliminar toxinas e o frio a preservar a contagem de espermatozoides. Sua rotina, que também inclui exercícios, água filtrada e roupas íntimas de algodão, é motivada por conteúdos de influenciadores como Bryan Johnson, ex-bilionário do Vale do Silício conhecido por seus experimentos de longevidade. Johnson alega ter uma contagem de espermatozoides significativamente acima da média, promovendo protocolos não validados cientificamente, que incluem as práticas adotadas por Simon e a venda de suplementos em seu site.
As informações foram reunidas a partir de reportagens da BBC.
O Fenômeno dos Influenciadores e a Indústria da Fertilidade
Especialistas em fertilidade masculina observam um aumento na procura por exames de sêmen e na preocupação com a saúde reprodutiva futura, impulsionado por fatores como o uso de terapias de reposição de testosterona (TRT), esteroides anabolizantes e a exposição a poluentes ambientais. No entanto, o professor Suks Minhas, especialista em fertilidade no Reino Unido, questiona se essa ansiedade não está sendo alimentada de forma desnecessária, ao mesmo tempo em que uma indústria de influenciadores e produtos se beneficia desse cenário. A queda na contagem de espermatozoides, embora um tema de debate científico, é amplificada nas redes sociais, levando homens como Simon a adotar medidas preventivas sem um diagnóstico específico.
A queda nas taxas de natalidade é um fato globalmente reconhecido. Segundo projeções da ONU, a taxa de fecundidade mundial está em declínio, com 106 países abaixo da taxa de reposição populacional. Robert F. Kennedy Jr., Secretário de Saúde dos EUA, chegou a falar em uma “crise de fertilidade”, citando uma suposta redução pela metade na contagem de espermatozoides dos adolescentes em comparação com 1970. Embora análises de grande escala sugiram um declínio na qualidade e contagem de espermatozoides desde os anos 70, estudos mais recentes, como os publicados em 2024 e 2025, em populações específicas dos EUA e Dinamarca, não encontraram evidências robustas dessa queda, defendendo a necessidade de mais pesquisas.
Riscos de Soluções Não Comprovadas
Em meio à incerteza científica, influenciadores como o naturopata Lucas promovem conselhos alarmistas, como a previsão de infertilidade masculina em 33 anos, sem respaldo científico. Ele comercializa cursos, consultorias e suplementos, e recomenda o uso de bolsas de gelo nos testículos, alegando sucesso relatado por clientes. Embora o NHS do Reino Unido sugira que roupas íntimas apertadas podem afetar a temperatura testicular e, consequentemente, a qualidade do esperma, a prática de resfriamento com gelo é considerada preliminar e carece de estudos robustos. Por outro lado, orientações sobre alimentação, sono e exercícios físicos, recomendadas por especialistas como o professor Channa Jayasena, endocrinologista do Imperial College London, possuem sólida base científica.
Um perigo adicional surge com o uso de “stacks” de fertilidade, combinações de medicamentos como HCG e HMG, promovidos para “reativar” a fertilidade após o uso de TRT ou esteroides. Esses medicamentos, quando utilizados sem prescrição médica, podem causar efeitos colaterais graves, como coágulos sanguíneos e ginecomastia (crescimento das mamas), com potencial para sequelas permanentes. Homens que utilizaram esses “stacks” sem acompanhamento médico relatam ter buscado ajuda profissional após a ineficácia e os riscos associados a essas práticas. Especialistas como o professor Jayasena alertam que a crescente conscientização sobre a fertilidade masculina, aliada à dificuldade de acesso a especialistas, cria um vácuo de informação confiável, levando homens a adotarem medidas potencialmente prejudiciais à saúde.
Enquanto a ciência busca respostas sobre as causas e a extensão do declínio da fertilidade masculina, o mercado de influenciadores e produtos relacionados à saúde reprodutiva prospera, muitas vezes à custa da desinformação e de práticas de risco. Mudanças de estilo de vida comprovadas, como parar de fumar, perder peso e aumentar a atividade física, continuam sendo as recomendações mais eficazes e seguras para a saúde reprodutiva masculina.
