Relação entre coração e cérebro evidenciada por estudo
A saúde cardiovascular na meia-idade, mesmo na ausência de sintomas aparentes, pode ser um indicativo precoce do risco de desenvolver demência em idades mais avançadas. Uma pesquisa realizada pela Universidade College London, no Reino Unido, e publicada no European Heart Journal, sugere que pequenas lesões no músculo cardíaco, detectáveis por meio de marcadores como a troponina, podem aumentar significativamente a probabilidade de declínio cognitivo décadas depois.
O estudo acompanhou quase 6.000 participantes com idades entre 45 e 69 anos por um período de 25 anos. Os pesquisadores analisaram os níveis de troponina, uma proteína liberada quando há dano às células do músculo cardíaco. Os resultados indicaram que indivíduos com níveis de troponina mais elevados, mesmo abaixo dos limites clinicamente definidos, apresentaram um risco 38% maior de desenvolver demência ao final do período de acompanhamento.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência Einstein, com base em pesquisa da Universidade College London.
Troponina: um marcador além do infarto
A troponina é conhecida principalmente como um marcador de infarto agudo do miocárdio. No entanto, seus níveis elevados também podem estar associados a outras condições cardíacas e sistêmicas, como miocardite, pericardite, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, doença renal crônica e hipertensão arterial mal controlada. A presença de troponina em níveis aumentados, mesmo que subclínicos, sugere um estresse ou lesão no coração que pode ter repercussões a longo prazo.
Segundo o cardiologista Humberto Graner, do Hospital Israelita Albert Einstein, a conexão entre a saúde do coração e o cérebro é cada vez mais clara na medicina moderna. “Hoje entendemos que a saúde cardiovascular não influencia apenas infarto, AVC [acidente vascular cerebral] ou insuficiência cardíaca, mas também a velocidade do envelhecimento cerebral”, explica Graner. Ele ressalta que a demência não surge abruptamente, mas sim de forma silenciosa, ao longo de décadas, por meio de processos vasculares, inflamatórios e metabólicos progressivos.
O desgaste silencioso do cérebro
O estudo britânico reforça a ideia de que lesões miocárdicas aparentemente “invisíveis” podem atuar como um sinalizador precoce de um envelhecimento biológico acelerado. “Ou seja, a lesão miocárdica subclínica antecede em décadas a manifestação neurológica”, afirma Graner. Problemas cardiovasculares subclínicos podem comprometer a irrigação sanguínea cerebral ou a saúde vascular de maneira geral.
O cérebro é altamente dependente de um fluxo sanguíneo contínuo e adequado. Condições como hipertensão arterial, diabetes, resistência à insulina, inflamação crônica e aterosclerose, quando presentes por longos períodos, podem afetar a microcirculação cerebral, criando um ambiente menos propício à preservação da rede neuronal. Exames de imagem associados à pesquisa também revelaram uma redução no volume do hipocampo, uma área cerebral crucial para a memória e o aprendizado, possivelmente devido a essas perdas cumulativas na eficiência vascular e na oferta energética ao longo do tempo.
Prevenção: um caminho para proteger coração e cérebro
A boa notícia é que as estratégias para proteger o coração também são eficazes para a saúde cerebral. A janela de maior impacto para essas medidas preventivas situa-se entre os 40 e 65 anos. Os fatores protetivos incluem o controle rigoroso da pressão arterial, o tratamento adequado de diabetes e resistência insulínica, a redução agressiva do colesterol LDL e da aterosclerose, a prática regular de atividade física, a manutenção da massa muscular, a qualidade do sono, o não tabagismo, o controle do peso corporal, a diminuição da inflamação metabólica e o estímulo cognitivo e social contínuo.
