A Odisseia e suas múltiplas faces
A recente releitura cinematográfica de “A Odisseia” pelo diretor Christopher Nolan gerou críticas contundentes, com o escritor Martim Vasques da Cunha acusando o filme de “vender-se” e promover a “extinção da memória” da obra original de Homero. No entanto, uma análise mais aprofundada sugere que tais reações podem advir de uma memória afetiva e idealizada dos épicos homéricos, descolada da complexidade intrínseca dos textos e da própria natureza mutável dos mitos gregos.
As críticas focam na suposta descaracterização de Penélope, a “mais fiel das esposas”, e de Telêmaco, o “mais leal dos filhos”. Contudo, especialistas como a helenista Natalie Haynes apontam que Telêmaco, mesmo aparentando ter cerca de 20 anos no início do poema, comporta-se imaturamente, necessitando de intervenção divina para iniciar sua jornada. Sua lealdade, portanto, não o isenta de falhas e inseguranças juvenis. Já Penélope, longe de ser apenas uma esposa submissa, demonstra um ceticismo irônico e uma astúcia que levantam dúvidas sobre a genuinidade de sua dificuldade em reconhecer Odisseu disfarçado. Sua própria apresentação provocante aos pretendentes, inspirada por Atena, desafia a noção de uma fidelidade inquestionável.
A ideia de que as versões homéricas seriam canônicas é um equívoco, como ensina o classicista Junito de Souza Brandão. O mito, por sua própria natureza, é dinâmico e repleto de variantes. Em outras narrativas, Penélope chega a ser infiel, sendo expulsa de Ítaca ao retornar o marido, ou até mesmo cedendo a todos os pretendentes e dando à luz ao deus Pã.
Um aspecto frequentemente negligenciado é a própria natureza de Odisseu. Longe de ser um herói impecável, o Odisseu de Homero exibe traços que, em termos modernos, poderiam ser classificados como sociopatas. Essa complexidade se acentua em tradições posteriores, onde é retratado como maquiavélico em “Filoctetes”, de Sófocles, e como “cruel” ou “falso” Ulisses na “Eneida” de Virgílio.
A reação de figuras como Elon Musk, que critica o que chama de “empatia suicida” ocidental, pode estar ligada à ênfase que o filme dá à “xenia”, o sagrado dever da hospitalidade para com o estrangeiro, um pilar da obra homérica. A influência da visão de Nolan é provável, mas é irrealista supor que ela possa apagar os poemas de Homero, textos que, lamentavelmente, têm um alcance limitado no século XXI. É mais plausível que a adaptação incentive um público mais amplo a buscar a obra original, descobrindo um Odisseu e uma “Odisseia” muito mais complexos e intrigantes do que a visão idealizada permite.
As informações foram reunidas a partir de análise do conteúdo apresentado em reportagem da Folha de S.Paulo.
