Governo Lula 3 se aproxima de marca histórica em despesas com cartões corporativos
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está em rota de colisão com um recorde histórico: o de maiores gastos com cartões corporativos na Presidência da República. Com R$ 55,4 milhões já desembolsados até abril de 2025, o atual governo se aproxima de superar o próprio primeiro mandato (2003-2006), que registrou R$ 70 milhões em valores corrigidos pela inflação. A tendência, caso o ritmo atual de R$ 2 milhões mensais se mantenha, é que o Lula 3 encerre seu período com o maior valor absoluto desde a criação do instrumento, em 2001.
As informações são baseadas em dados oficiais e auditados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pelo Portal da Transparência. Paralelamente aos gastos com cartões corporativos, o Executivo já ultrapassou a marca de R$ 4,5 bilhões em diárias e passagens nos primeiros três anos e meio do governo. Episódios como a renovação do mobiliário do Palácio da Alvorada e hospedagens em hotéis de alto padrão no exterior têm alimentado o debate sobre os custos da Presidência e a responsabilidade fiscal.
Em valores corrigidos, o ranking histórico de gastos com cartões corporativos é liderado pelo primeiro mandato de Lula (R$ 70 milhões), seguido pelo segundo mandato do petista (R$ 57 milhões). Dilma Rousseff 1 aparece em terceiro (R$ 50 milhões), seguida por Jair Bolsonaro (R$ 39 milhões), Michel Temer (R$ 18 milhões) e Dilma 2 (R$ 12 milhões). Com 20 meses de execução orçamentária ainda pela frente até dezembro de 2026, o atual mandato tem potencial para reescrever essa história.
Ostentação e questionamentos marcam o terceiro mandato
A atual gestão tem sido alvo de críticas pela percepção de ostentação, com destaque para gastos com viagens oficiais, hospedagens em hotéis de luxo e a aquisição de mobiliário de alto valor para residências oficiais. A primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, também tem sido associada a episódios de gastos que geraram repercussão, como a compra de um sofá de R$ 65 mil e uma cama de R$ 42 mil para o Palácio da Alvorada, justificados pela necessidade de recompor o acervo. Outras aquisições, como um tapete de R$ 114 mil para o Planalto, com a justificativa de conferir maior “brasilidade” à decoração, também chamaram atenção.
As hospedagens em hotéis de alto padrão durante missões oficiais no exterior, como o InterContinental Paris Le Grand e o Taj Palace em Nova Déli, também foram pontos de crítica. Em 2025, cerca de R$ 18 milhões de um total de R$ 44 milhões em viagens internacionais foram destinados à hospedagem de comitivas. Parlamentares e órgãos de controle questionam os critérios de escolha, o tamanho das comitivas e o alto custo desses estabelecimentos, especialmente em cidades como Paris e Nova York.
A dificuldade em obter informações detalhadas sobre algumas viagens, como a de Janja a Nova York em 2024, via Lei de Acesso à Informação (LAI), com respostas consideradas incompletas sobre hospedagem e alimentação, intensificou as críticas e os pedidos por maior transparência. O governo, por sua vez, defende que os desembolsos refletem necessidades operacionais, de segurança e de recomposição do patrimônio público, enquanto o TCU monitora as despesas sem apontar irregularidades até o momento.
Debate sobre austeridade e o espírito republicano
O padrão de gastos em torno da Presidência tem gerado um debate sobre a adequação à austeridade fiscal e aos princípios republicanos. O cientista político Ismael Almeida observa que a ostentação pode conflitar com a sobriedade esperada de agentes públicos em democracias, especialmente quando contrastada com o discurso de defesa das populações de baixa renda. A manutenção de sigilo em grande parte das despesas, incluindo as do cartão corporativo e da primeira-dama, sob justificativas de segurança e privacidade, também tem sido um ponto de atrito, apesar de promessas de maior transparência.
O governo e seus aliados frequentemente destacam a valorização da moda nacional e o empréstimo de peças por estilistas para eventos públicos, buscando contrapor as críticas ao vestuário de Lula e Janja. No entanto, a oposição compara os valores divulgados com a renda média da população, acentuando o contraste entre a imagem presidencial e a realidade de muitos brasileiros.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Portal da Transparência, Tribunal de Contas da União (TCU) e reportagens jornalísticas.
