A Polícia Federal do Brasil teve uma fachada criminosa descoberta em Essuatíni, na África, em uma operação internacional coordenada pela Interpol. O local, montado como uma réplica realista de uma delegacia da PF, era utilizado para aplicar golpes financeiros e extorsão contra brasileiros e africanos. Pelo menos 82 falsos agentes e colaboradores foram detidos durante a ação, que apreendeu 240 dispositivos eletrônicos e dinheiro.
A rede criminosa operava jogos de azar online ilegais, lavagem de dinheiro e complexos golpes de falsa identidade a partir do país africano. Os golpistas se passavam por delegados e agentes da Polícia Federal brasileira em videochamadas, convencendo as vítimas de que haviam cometido crimes. Sob o pretexto de uma “guarda segura”, induziam as pessoas a transferir fundos, que eram então roubados.
A complexidade das evidências digitais levou as autoridades de Essuatíni a solicitar apoio da Interpol, que enviou uma equipe para realizar análise forense dos materiais apreendidos, com colaboração da PF brasileira. A descoberta ocorreu em meio a uma investigação antifraude global que mobilizou cerca de 100 países.
Operação global First Light 2026 atinge milhares de criminosos
A ação em Essuatíni faz parte da operação First Light 2026, uma iniciativa global antifraude que envolveu 97 países e territórios. A operação, deflagrada entre janeiro e abril deste ano e revelada na semana passada pela Interpol, resultou na prisão de 5.811 indivíduos e na interceptação de US$ 293 milhões em ativos ilícitos. O foco principal foi o combate a golpes de engenharia social e atividades de lavagem de dinheiro associadas.
Engenharia social é um termo amplo que descreve técnicas que exploram a confiança das pessoas para obter dinheiro ou informações confidenciais, abrangendo desde fraudes românticas e de investimento até extorsão sexual e comprometimento de e-mails corporativos. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) já havia alertado, em 2023, sobre o crescimento desses golpes, especialmente no Sudeste Asiático, onde situações de pessoas forçadas a cometer crimes representam mais de 10% dos casos de tráfico humano reportados mundialmente.
Impacto transnacional das fraudes digitais
Durante a operação First Light 2026, mais de 142 mil vítimas em todo o mundo foram identificadas, demonstrando a escala transnacional dos golpes de engenharia social e fraudes. A iniciativa resultou na análise de 152.808 casos, no bloqueio de 31.014 contas bancárias e na emissão de 99 Avisos e Difusões da Interpol. O diretor do Centro da Interpol para Crimes Financeiros e Anticorrupção, Tomonobu Kaya, destacou a ameaça contínua desses golpes, enfatizando a necessidade de cooperação internacional para combatê-los.
A operação também registrou casos em diversos países: na Tailândia, foram presas duas pessoas envolvidas em um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou mais de US$ 122,5 milhões. Em Singapura e Omã, o sistema I-Grip foi usado para bloquear uma transferência ilícita de US$ 6,6 milhões ligada a um golpe de e-mail corporativo. Em Macau, uma campanha de conscientização evitou que uma vítima transferisse cerca de US$ 372 mil a fraudadores que se passavam por autoridades. Já em Palau, 22 indivíduos foram deportados por operarem centros de golpes a partir de hotéis, utilizando criptomoedas e jogos de azar ilegais contra vítimas estrangeiras.
A Interpol reafirma seu compromisso em apoiar os países-membros no desenvolvimento de estratégias coordenadas para combater crimes financeiros facilitados pelo ambiente digital, redes criminosas e a lavagem de dinheiro. A descoberta da delegacia falsa em Essuatíni reforça a sofisticação e o alcance das organizações criminosas que exploram a confiança e a vulnerabilidade de pessoas em escala global.
