Psicóloga colombiana morre em eutanásia após batalha judicial por suicídio assistido
A psicóloga Catalina Giraldo, de 30 anos, faleceu na última quinta-feira (9) em um procedimento de eutanásia na Colômbia, após uma longa e infrutífera batalha judicial para obter autorização para o suicídio assistido. A informação foi divulgada nesta terça-feira (14) pelo seu advogado, Lucas Correa Montoya.
Segundo Montoya, a eutanásia ocorreu “simplesmente porque ela não aguentou mais”. Catalina sofria de transtorno depressivo maior, transtorno de personalidade borderline e transtorno de ansiedade, condições crônicas e resistentes a tratamentos convencionais. Ela já estava em tratamento há mais de uma década e há mais de dez meses travava a batalha judicial.
“Sua saúde continuava tão ruim quanto antes, e a espera acabou se tornando insuportável”, afirmou o fundador do DescLAB, organização de direitos humanos colombiana que liderou o processo. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo DescLAB e pela emissora Notícias Caracol.
A busca por métodos de fim de vida
Inicialmente, Catalina buscou o direito à eutanásia, procedimento no qual um médico administra a substância letal. Essa foi sua escolha não por preferência de método, mas porque é a forma regulamentada na Colômbia, diferentemente do suicídio assistido, onde o paciente induz a própria morte com acompanhamento profissional.
O suicídio assistido foi descriminalizado pela Corte Constitucional colombiana em 2022, mas ainda carece de regulamentação pelo Ministério da Saúde ou pelo Congresso, o que impede sua realização. Esse cenário é semelhante ao da eutanásia, que, apesar de descriminalizada em 1997, só foi regulamentada em 2015.
A entidade de saúde responsável negou o pedido inicial de Catalina, alegando que ela não possuía uma doença grave e incurável. Sua defesa, contudo, argumentava que ela já havia sido submetida a dezenas de combinações de medicamentos, anos de psicoterapia, eletroconvulsoterapia e internações psiquiátricas.
“Eu queria poder desligar (…) esse desconforto. Às vezes, há pequenos momentos durante o dia em que ele diminui, mas, na maior parte do tempo, está comigo”, disse a psicóloga em março, quando seu caso ganhou notoriedade.
Obstáculos e a decisão final
Diante da impossibilidade de realizar o suicídio assistido por falta de regulamentação, Catalina optou por tentar novamente a eutanásia após sua última internação psiquiátrica. “Esse pedido também foi repleto de obstáculos. Tivemos que entrar com ações judiciais para obter uma resposta e, finalmente, o sistema de saúde autorizou”, relatou o advogado.
Após a autorização, ela decidiu realizar o procedimento em uma clínica em Bogotá no dia 9 de julho. Antes de falecer, Catalina pediu que o Tribunal Constitucional analisasse seu caso, mesmo após sua morte, o que é permitido pelas leis colombianas.
“Nosso Tribunal Constitucional compreende que, apesar de seu falecimento, as razões por trás da violação de seus direitos permanecem, então é necessário resolvê-las para que outros, no futuro, não se deparem com as mesmas barreiras”, explicou Montoya. Ele acrescentou que a expectativa é que a corte ordene ao Ministério da Saúde a regulamentação da matéria e ao Congresso a priorização do tema em sua agenda.
Um caso emblemático para a saúde mental
A associação brasileira Eu Decido ingressará como amicus curiae na ação, conforme noticiado no último sábado (11). O advogado ressaltou que a divulgação da morte de Catalina foi adiada em respeito à família, para que tivessem tempo de privacidade e reflexão.
O caso de Catalina Giraldo é considerado emblemático por se tratar de um pedido de fim de vida motivado por questões de saúde mental, algo incomum e que raramente chega à esfera pública. “Há poucos casos em que pessoas com doenças mentais tenham recorrido à eutanásia. O que torna este diferente é que foi o primeiro divulgado nos meios de comunicação”, afirmou Montoya.
Para o advogado, a morte da psicóloga pode expandir o debate sobre eutanásia, tradicionalmente associada a doenças como câncer ou neurodegenerativas como ELA, Parkinson ou Alzheimer. “Além de reconhecer que pessoas com doenças mentais sofrem, este caso específico destaca um ponto que me parece fundamental: pacientes com doenças mentais também têm o direito de dizer não ao tratamento psicológico ou psiquiátrico”, concluiu.
