Filósofo sul-africano David Benatar desafia a noção de que procriar é um dever moral ou biológico, classificando a busca por aumento populacional como um esquema insustentável.
Em um cenário global onde líderes como J.D. Vance nos EUA, Xi Jinping na China e Giorgia Meloni na Itália incentivam o aumento da natalidade, a filosofia antinatalista emerge como um contraponto crítico. David Benatar, professor emérito da Universidade da Cidade do Cabo e um dos principais nomes do antinatalismo, questiona o imperativo da reprodução, argumentando que a procriação é, fundamentalmente, uma fonte de sofrimento inevitável.
Benatar define o antinatalismo como a visão de que é moralmente errado trazer novos seres sencientes à existência. Essa perspectiva se estende para além dos humanos, abrangendo também animais, que, segundo o filósofo, sofrem intensamente em sistemas de produção industrial. A base de seu argumento reside na chamada “assimetria axiológica”: enquanto a ausência de um prazer não é ruim se o indivíduo nunca existiu para senti-lo, a introdução de um ser no mundo garante a exposição a danos e sofrimentos, sendo a morte um dos mais severos.
As informações foram reunidas a partir de entrevista concedida pelo filósofo à Folha de S.Paulo.
A programação evolutiva versus a moralidade
O filósofo rebate a ideia de que a “programação evolutiva” que nos impele a procriar justifique a prática. Ele traça um paralelo com comportamentos como o estupro na natureza, que, apesar de poderem ter bases evolutivas, não são moralmente aceitáveis. Benatar defende que a capacidade humana de reflexão permite questionar e, quando necessário, ir contra instintos biológicos.
Ele também aborda a questão do suicídio, diferenciando-o do antinatalismo. Embora considere a morte um mal, Benatar defende o suicídio assistido em casos de sofrimento extremo e insuportável, argumentando que pessoas que não tiveram escolha sobre nascer deveriam ter a opção de encerrar suas vidas sob circunstâncias específicas. Contudo, ele ressalva a importância de salvaguardas para garantir que tais decisões sejam tomadas de forma racional, e não como resultado de sofrimentos evitáveis ou tratáveis.
O antinatalismo como crítica a políticas pró-natalistas
Benatar classifica os movimentos pró-natalistas, que tratam as taxas de fertilidade como uma questão de Estado, como um “esquema de pirâmide”. Segundo ele, a necessidade contínua de novas gerações para sustentar as anteriores é insustentável e levará a um sofrimento inevitável para as últimas gerações. “Quanto mais cedo acontecer, mais sofrimento será evitado”, afirma, ressaltando que não defende o extermínio da espécie humana, mas sim a extinção gradual através da redução da fertilidade.
Sobre o aborto, Benatar considera que não há nada de errado em interrupções nas fases iniciais da gestação. No entanto, a partir do momento em que o feto se torna senciente, seus interesses devem ser considerados, embora isso não anule os direitos da mulher. Ele argumenta que a escolha de métodos abortivos que causem dor a um feto avançado não seria uma decisão livre, pois implicaria infligir dano a outro ser senciente.
Raio-X: David Benatar
David Benatar, 59 anos, é professor emérito de filosofia na Universidade da Cidade do Cabo e o principal expoente do antinatalismo. Sua obra mais conhecida é “Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence” (2006), onde detalha seus argumentos contra a procriação, defendendo o fim da reprodução como a escolha mais moral.
