O Legado de Planck e a Sombra do Cancelamento
A ciência, em sua busca incessante por conhecimento, raramente é imune a controvérsias. Mesmo figuras icônicas, cujas contribuições moldaram a compreensão do universo, podem se ver no centro de debates éticos e editoriais, mesmo após a morte. Max Planck, o renomado físico alemão e laureado com o Prêmio Nobel, é um exemplo recente dessa realidade. Sua obra seminal, que lançou as bases da teoria quântica, agora figura em uma lista de retratações científicas, um fenômeno conhecido como “cancelamento” no meio acadêmico, levantando questões sobre a aplicação de padrões éticos contemporâneos a práticas do passado.
Planck, nascido em 1858 e falecido em 1947, é lembrado mundialmente pela introdução da constante que leva seu nome. Essa constante, que estabelece a natureza discreta da energia, foi o alicerce para o desenvolvimento de tecnologias que vão desde os celulares até o GPS, rendendo-lhe o Nobel de Física em 1918. Em uma era pré-digital, suas interações sociais e acadêmicas ocorriam em cafés, concertos e reuniões científicas, distantes do cenário de redes sociais e inteligência artificial que hoje permeiam discussões sobre “cancelamento”.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Retraction Watch e pela revista Science.
A Lista do Retraction Watch e os Casos de Planck
O nome de Max Planck aparece em quarto lugar na lista “Cancelamentos de ganhadores do Prêmio Nobel” mantida pelo boletim Retraction Watch. O físico possui duas retratações, um número que o coloca ao lado de outros cientistas renomados como Thomas Südhof e Jack Szostak. O primeiro lugar nesta lista é ocupado por Gregg Semenza, com 15 imputações. É crucial notar que figurar neste índice não significa uma condenação definitiva de fraude ou imperícia. Muitas retratações ocorrem devido a erros não intencionais, e em alguns casos, a pedido dos próprios autores, enquanto em outros, ocorrem à revelia deles.
Contudo, o caso de Planck se distingue por sua natureza peculiar. Em vida, o físico alemão nunca foi acusado de má conduta científica. As críticas e reinterpretações de sua teoria quântica foram inerentes ao processo de desenvolvimento científico, mas não indicavam erros que a invalidassem. As retratações póstumas, conforme relatos, parecem estar ligadas a questões editoriais e de direitos autorais, possivelmente detectadas por algoritmos de inteligência artificial que monitoram a rede em busca de infrações.
O “Cancelamento” Póstumo: Direitos Autorais e Autoplágio
Uma das objeções que levaram a uma retratação data de 1940. O filósofo Aloys Müller criticou a concepção de realidade de Planck em um artigo publicado na revista Naturwissenschaften. A resposta de Planck, no mesmo periódico, com o mesmo título, teria infringido direitos autorais, culminando em um cancelamento pela editora Springer. Em 1942, outro caso de retratação teria ocorrido por autoplágio, quando Planck republicou um ensaio como capítulo de livro, também na Naturwissenschaften. Historiadores como Yves Gingras e Mahdi Khelfaoui argumentam que aplicar padrões éticos atuais a práticas editoriais da época pode ser anacrônico.
A situação de Max Planck, portanto, torna-se um estudo de caso sobre como a evolução das normas éticas e tecnológicas pode recontextualizar o trabalho de grandes mentes do passado. A ironia reside no fato de que os mesmos avanços tecnológicos que levaram à sua retratação, como os algoritmos de IA, são, em parte, frutos da revolução quântica que ele mesmo desencadeou.
