A mamografia, exame crucial para a detecção precoce do câncer de mama, apresenta um acesso desigual no Brasil, com mulheres autodeclaradas brancas e amarelas tendo maior probabilidade de realizá-lo em comparação com mulheres pretas, pardas e indígenas. A disparidade, evidenciada por um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, sugere que fatores socioeconômicos e a inclusão em planos de saúde desempenham papéis significativos nesse cenário.
A pesquisa, que analisou dados da primeira onda do Estudo Longitudinal de Saúde do Idoso Brasileiro (ELSI-Brasil), revelou que 82,2% das mulheres brancas e amarelas com 50 anos ou mais já haviam realizado o exame, contra 71,9% entre mulheres pretas, pardas e indígenas. Essa diferença sublinha que a realização da mamografia não é equitativa e que as desigualdades sociais se refletem no acesso aos serviços de saúde.
A economista Alana Ramos da Silva, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e autora correspondente do estudo, explica que é fundamental compreender e enfrentar as barreiras que dificultam o acesso ao exame, especialmente para as mulheres em situação de maior vulnerabilidade. Os resultados indicam que a posse de um convênio particular de saúde aumenta em cerca de 12,9% a probabilidade de realizar a mamografia. Outros fatores como o casamento (aumento de 6,9%) e maior escolaridade também foram associados a uma maior probabilidade de acesso, enquanto a maternidade apresentou uma leve redução de 1,6% a cada filho.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Ciência & Saúde Coletiva.
Fatores Socioeconômicos e Acesso à Saúde
As disparidades no acesso à mamografia estão intrinsecamente ligadas às diferenças nas condições socioeconômicas entre os grupos raciais. O estudo calculou que, se as mulheres pretas, pardas e indígenas apresentassem o mesmo conjunto de características socioeconômicas das mulheres brancas e amarelas, a probabilidade de realizarem o exame seria 5,9% maior. No entanto, mesmo com a equidade nesses fatores analisados, uma diferença de 4,3% persistiria, indicando a necessidade de investigar outras barreiras, como dificuldades de acesso geográfico e logístico aos serviços de saúde.
O câncer de mama é a segunda neoplasia mais frequente entre as mulheres no Brasil, com estimativas de cerca de 78.610 novos casos anuais entre 2026 e 2028. É também a principal causa de mortalidade feminina por câncer. A detecção em estágios iniciais, como o estágio 1, está associada a chances de cura superiores a 90%, enquanto no estágio 4, a taxa de recuperação é inferior a 10%. Quanto mais precoce o diagnóstico, menores também são as chances de necessitar de tratamentos mais agressivos como quimioterapia e radioterapia.
A Importância do Rastreamento e os Desafios
O autoexame é importante para o conhecimento do corpo, mas o rastreamento oficial do câncer de mama é a mamografia. O Ministério da Saúde recomenda que mulheres a partir dos 40 anos iniciem o acompanhamento, geralmente com repetição anual ou bienal até os 70 anos. Para mulheres com histórico familiar ou predisposição genética, a indicação é iniciar os exames antes dos 40 anos e com maior frequência, podendo alternar entre ressonância magnética e mamografia com ultrassonografia.
Para mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica, a prevenção muitas vezes compete com necessidades básicas como alimentação, transporte e pagamento de contas. A falta de informação sobre a importância do rastreamento e a dificuldade em priorizá-lo diante de outras urgências também contribuem para afastar essas mulheres do diagnóstico precoce. Mesmo após a identificação de um nódulo, os custos de deslocamento, a distância dos serviços de saúde, as dificuldades de agendamento e consultas especializadas podem prolongar o caminho até o diagnóstico definitivo.
Reduzindo as Desigualdades no Acesso
Para mitigar essas disparidades, o estudo sugere a ampliação da oferta de mamografias, equipamentos e profissionais, especialmente em regiões remotas e com atendimento insuficiente. O fortalecimento da atenção primária, com busca ativa, orientação às mulheres e encaminhamento ágil para os serviços de diagnóstico, é considerado essencial para garantir que todas as mulheres tenham acesso a esse exame vital.
