A textura dos alimentos se tornou um campo de batalha estratégico entre a indústria alimentícia e a ciência. Enquanto empresas investem em pesquisas para tornar seus produtos cada vez mais irresistíveis através de sensações táteis e gustativas, a comunidade científica busca entender como essas características afetam o consumo e a saúde pública, especialmente no contexto do combate à obesidade. Essa dualidade de objetivos levanta um debate crucial sobre a participação da indústria na formulação de políticas alimentares.
A indústria alimentícia tem explorado a textura como uma nova fronteira para o desenvolvimento de produtos. Dados recentes indicam um crescimento expressivo na demanda por snacks que proporcionam “prazer por meio da textura”, com um aumento de 28% na procura em dois anos nos Estados Unidos, enquanto a oferta cresceu apenas 8%. Esse fenômeno é impulsionado, em parte, pelo uso de medicamentos para emagrecimento, que podem reduzir o apetite, e pela popularidade de conteúdos em redes sociais que exploram a “resposta sensorial meridiana autônoma” (ASMR) através de sons de mastigação.
Paralelamente, a ciência investiga os efeitos da textura no comportamento alimentar. Estudos apontam que alimentos que exigem maior mastigação tendem a ser consumidos mais lentamente e em menor quantidade. Um experimento com 50 adultos, por exemplo, mostrou que refeições com alimentos duros reduziram a ingestão energética em 26% em comparação com alimentos macios. Essa característica é vista como um potencial fator de controle do consumo excessivo, embora o efeito pareça se estender a alimentos minimamente processados de consistência macia.
As informações foram reunidas a partir de reportagens da The Economist, republicadas pela Folha, e estudos citados como o da Mintel e pesquisas publicadas em revistas científicas como The Lancet.
Conflito de Interesses na Formulação de Políticas
Apesar de partirem de uma questão comum – como a textura influencia o quanto comemos –, a indústria e a ciência possuem objetivos antagônicos: a primeira busca ampliar o consumo e, consequentemente, os lucros, enquanto a segunda visa proteger a saúde coletiva. Essa divergência fundamental torna ingênua a ideia de que ambos os setores possam sentar-se à mesa com igual legitimidade para definir diretrizes alimentares.
O compromisso da indústria é com seus acionistas, e não com a saúde pública. Setores corporativos frequentemente atuam para influenciar políticas públicas que afetam seus interesses, utilizando estratégias como lobby, litígios e a disseminação de dúvidas científicas. Uma série da The Lancet de 2025 destaca como a lucratividade dos ultraprocessados impulsiona a expansão da indústria, que, por sua vez, obstrui a regulação. Na América Latina e no Caribe, uma revisão de 76 documentos revelou que 69 registraram estratégias de influência sobre formuladores de políticas.
A Influência da Indústria no Brasil
No Brasil, a disputa em torno do Imposto Seletivo, apelidado de “imposto do pecado”, ilustra essa dinâmica. Um estudo do Idec e da ACT mapeou estratégias do setor agroalimentar para influenciar o debate, frequentemente enquadrando o consumo de ultraprocessados como um problema “trivial” e “individual”, afastando a responsabilidade da indústria. Essa abordagem teve sucesso em isentar a maioria desses produtos do imposto, com exceção, por ora, dos refrigerantes.
A ideia de que a indústria pode ser parte da solução para problemas de saúde pública, como a obesidade, é considerada frágil. Na formulação de políticas alimentares, a ciência e a sociedade civil, que possuem maior transparência sobre seus conflitos de interesse, devem ter o protagonismo, evitando que interesses privados ditem o rumo da saúde coletiva.
