PCC e CV: O Legado de Violência que Levou à Classificação como Terroristas pelos EUA
A recente designação das facções criminosas brasileiras, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO) pelos Estados Unidos marca um ponto de virada nas relações internacionais e na percepção do crime organizado no Brasil.
Embora a decisão tenha gerado protestos do governo brasileiro, a trajetória das duas organizações é marcada por uma escalada de violência e ações que extrapolam o tráfico de drogas, incluindo ataques coordenados, assassinatos de autoridades e o uso de táticas militares.
O histórico de mais de três décadas de atividades violentas e desestabilizadoras por parte do PCC e do CV fornece justificativas contundentes para a classificação imposta pelos Estados Unidos, conforme informações divulgadas pelo governo americano.
O “Salve Geral” de 2006: São Paulo Paralizada por Dez Dias
Um dos episódios mais emblemáticos da capacidade de atuação do PCC ocorreu em maio de 2006. A facção orquestrou uma ofensiva simultânea em todo o estado de São Paulo, **paralisando a maior metrópole do país** e gerando um cenário de caos.
Durante dez dias, o estado vivenciou uma onda de ataques, rebeliões em presídios e atentados que resultaram em **564 mortes**, incluindo 505 civis e 59 agentes públicos. Mais de 70 rebeliões foram registradas em unidades prisionais, e prédios públicos, como delegacias e agências bancárias, foram alvos de tiros e explosões. **Pelo menos 90 ônibus foram incendiados**.
A retalição do PCC foi uma resposta à transferência de 765 presos ligados à facção para um presídio de segurança máxima e ao isolamento de seu líder, Marcola. A ação demonstrou o poder de mobilização e controle da organização.
Jornalistas na Mira: Ameaças e Assassinatos por Parte das Facções
A imprensa também sentiu na pele a brutalidade do PCC e do CV, que passaram a considerar profissionais de comunicação como alvos. Em 2002, o jornalista **Tim Lopes**, da TV Globo, foi capturado e brutalmente assassinado na favela Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, enquanto investigava denúncias de tráfico e abuso sexual.
Levado ao Complexo do Alemão por ordem de Elias Maluco, liderança do Comando Vermelho, Tim Lopes foi torturado e morto. Seu corpo foi encontrado carbonizado, sendo identificado apenas por exame de DNA. A execução chocou o país e evidenciou a periculosidade das facções.
Anos depois, em São Paulo, o PCC também atacou a imprensa. Em 2006, o repórter **Guilherme Portanova**, da TV Globo, foi sequestrado com um auxiliar técnico. A condição para a liberação foi a exibição em rede nacional de um vídeo com as exigências da facção. Após 40 horas em cativeiro, foram libertados.
Autoridades Alvejadas: Juízes, Delegados e Planejamento Contra Senador
Autoridades do sistema de Justiça e segurança pública têm sido alvos sistemáticos do PCC ao longo de duas décadas. Em 2003, o juiz-corregedor **Antônio José Machado Dias** foi assassinado em Presidente Prudente, sendo visto como um inimigo das lideranças da facção presas na região.
Mais recentemente, em 2024, o PCC planejou o **sequestro e homicídio do senador Sergio Moro**, ex-juiz da Lava Jato, além de outros crimes. O plano foi desarticulado pela Polícia Federal, e oito integrantes da facção foram condenados. O caso demonstrou a ambição e o alcance das ações planejadas pelo PCC contra figuras políticas e jurídicas.
Em 2025, o ex-delegado geral da Polícia Civil de São Paulo, **Ruy Ferraz Fontes**, um dos maiores especialistas no PCC, foi assassinado a tiros de fuzil na Praia Grande. Segundo as investigações, os mandantes eram integrantes do PCC que o delegado havia prendido anos antes, evidenciando a busca por vingança e a eliminação de adversários.
Alcance Global e Táticas Militares: Drones Armados e Execução em Aeroporto
A audácia e o alcance do crime organizado organizado pelas facções brasileiras foram expostos em eventos recentes. Em novembro de 2024, uma **execução a tiros no maior aeroporto do país**, o de Guarulhos, em São Paulo, com envolvimento de policiais militares, chocou o Brasil.
O empresário Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, delator de uma investigação de lavagem de dinheiro, foi morto no Terminal 2 do aeroporto. A perícia registrou 27 disparos, e um motorista de aplicativo que trabalhava no local também morreu. Três policiais militares foram indiciados pelo crime, indicando a infiltração e o poder de corrupção das facções.
No Rio de Janeiro, o Comando Vermelho demonstrou uma nova fronteira de atuação ao utilizar **drones com granadas para defender territórios**. Durante a operação “Contenção”, em outubro de 2025, traficantes do CV adaptaram drones para lançar explosivos contra a polícia nos complexos da Penha e do Alemão. A ação, que resultou na morte de 121 pessoas, incluindo quatro policiais, evidenciou o uso de táticas inspiradas em conflitos militares internacionais, com treinamento supostamente conduzido por um brasileiro que participou da guerra na Ucrânia.