Pesquisadores nos Estados Unidos avançam no desenvolvimento de um anticoncepcional masculino oral, que promete oferecer uma nova opção contraceptiva para homens. Atualmente em fase de testes em animais, a pílula tem como objetivo bloquear temporariamente a mobilidade dos espermatozoides, impedindo a fecundação por um período de seis a oito horas após a ingestão. A expectativa é que a fertilidade retorne ao normal após o fim do efeito do medicamento.
O estudo é liderado por Jochen Buck e Lonny Levin, farmacologistas da Weill Cornell Medicine. O projeto tem recebido financiamento substancial do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano (NICHD) dos EUA, com uma bolsa recente de milhões de dólares destinada a aprofundar as avaliações de segurança antes dos testes em humanos, previstos para ocorrer em menos de dois anos. Esta é a terceira bolsa concedida aos cientistas para o desenvolvimento da pílula desde 2020.
A pesquisa visa superar barreiras históricas e culturais que, segundo os próprios pesquisadores, têm dificultado o avanço da contracepção masculina. Buck e Levin apontam para uma relutância da indústria farmacêutica em investir em métodos contraceptivos para homens, o que tem sido um entrave para o desenvolvimento de novas alternativas. O atual financiamento de quatro anos permitirá a continuidade das investigações necessárias para a aprovação clínica.
Mecanismo de ação e diferenciais
O medicamento atua sobre a enzima adenilil ciclase solúvel (sAC), essencial para a locomoção dos espermatozoides. Ao inibir temporariamente a sAC, a pílula impede que os espermatozoides se movam eficientemente através do trato reprodutivo feminino para alcançar e fecundar o óvulo. Essa estratégia difere de outros métodos masculinos em desenvolvimento, que buscam reduzir a produção de espermatozoides ou bloquear sua passagem.
Atualmente, as opções contraceptivas masculinas eficazes se limitam à vasectomia, um procedimento cirúrgico considerado irreversível, e ao uso de preservativos. A vasectomia interrompe o transporte dos espermatozoides dos testículos para a uretra, sem afetar a ereção, libido ou ejaculação, mas impedindo a liberação de espermatozoides no sêmen. Outros métodos em pesquisa incluem géis hormonais experimentais, como o NES/T, que combina segesterona e testosterona para suprimir a produção de espermatozoides, mas ainda carecem de aprovação e segurança comprovada como métodos contraceptivos.
Desafios e perspectivas futuras
Até o momento, os estudos com animais não apresentaram efeitos adversos significativos. No entanto, os pesquisadores alertam para a necessidade de avaliar possíveis efeitos colaterais, uma vez que a enzima sAC também está presente em outros tecidos, como os olhos. Outro ponto crucial é garantir que a inibição da mobilidade dos espermatozoides seja eficaz durante todo o período necessário para evitar a gravidez, considerando que os espermatozoides podem sobreviver por até cinco dias no corpo feminino, enquanto o efeito previsto da pílula é de seis a oito horas.
A busca por um equivalente masculino à pílula anticoncepcional feminina, aprovada na década de 1960, é um anseio antigo da comunidade científica. A desigualdade na responsabilidade pela contracepção, historicamente atribuída às mulheres, é apontada por especialistas como um fator social e cultural que contribui para a falta de investimento e desenvolvimento de métodos masculinos. A indústria farmacêutica, por sua vez, demonstra receio em relação à viabilidade de mercado, citando a resistência masculina em adotar medicações como um possível obstáculo.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Weill Cornell Medicine e reportagens especializadas.
