A linha tênue entre o sonho e o pesadelo
A trajetória de Phelipe de Moura Ferreira, um brasileiro que acumulou experiências de trabalho em diversos países como Laos, Emirados Árabes, Filipinas e Uruguai, poderia soar como um currículo de sucesso internacional. No entanto, por trás das coordenadorias de equipes e do domínio do inglês, esconde-se uma dura realidade: Phelipe foi vítima de escravidão moderna. Sua história, marcada por privação de liberdade, perseguições e retenção de passaporte, é o ponto de partida para o livro-reportagem “Um Inferno em Mianmar”, dos jornalistas Ricardo Viveiros e Laura de Araujo Cordeiro. A obra mergulha nas complexidades da escravidão contemporânea, um fenômeno que, apesar de pouco visível, persiste e se adapta aos tempos atuais.
O livro investiga como anúncios de emprego online, que prometem um futuro promissor no exterior, atraem jovens com o anseio de conhecer o mundo e ajudar suas famílias. Segundo Viveiros, o desejo de prosperar é legítimo, mas a falta de educação, informação e politização pode tornar esses indivíduos presas fáceis para exploradores. A narrativa se desenvolve a partir da experiência de Phelipe, que aos 26 anos aceitou uma proposta para trabalhar na Tailândia, com um salário atrativo, mas acabou sendo levado a Mianmar, onde foi mantido em cativeiro e forçado a participar de golpes financeiros online, sob constante ameaça de violência física.
A situação de Phelipe ganhou os noticiários em dezembro de 2024, quando ele conseguiu, de forma arriscada, enviar um pedido de socorro ao pai. A mobilização gerada pela sua história tocou a ONG internacional Exodus Road, que atua no combate ao tráfico de pessoas e foi fundamental para sua libertação. Os jornalistas Ricardo Viveiros e Laura de Araujo Cordeiro, autores da obra, buscaram ir além do sensacionalismo, utilizando o relato de Phelipe como um portal para desvendar outras facetas da escravidão moderna.
O chicote digital e a busca pela verdade
Diferente do gênero “true crime”, que muitas vezes transforma tragédias em entretenimento, Viveiros declara ter a intenção de escrever um livro sério e comprometido com a verdade. A pesquisa e a escrita de “Um Inferno em Mianmar” demandaram cerca de dois anos, um período consideravelmente maior do que o habitual para o autor. Durante esse tempo, os jornalistas enfrentaram o desafio de entrevistar vítimas que temiam relatar suas experiências e convencer o próprio Phelipe, ainda abalado pelo trauma, a compartilhar sua história.
O livro alerta para os perigos do recrutamento digital, que se tornou o primeiro passo para muitas vítimas da escravidão. Viveiros compara a situação atual à de antigamente, afirmando que, embora o feitor ainda esteja presente, o chicote agora é digital. A obra visa conscientizar jovens sobre os riscos de aceitar propostas de trabalho no exterior sem a devida cautela e informação, destacando a vulnerabilidade que a falta de acesso ao conhecimento pode gerar em um mundo cada vez mais conectado, mas também mais propenso a novas formas de exploração.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo livro “Um Inferno em Mianmar” e relatos associados.
