Caso de melhora em paciente com Alzheimer após uso de cogumelos psicodélicos ganha destaque global
Um artigo publicado em 27 de maio no periódico médico Frontiers in Neuroscience, com autoria de pesquisadores brasileiros, tem gerado ampla repercussão internacional. O estudo relata uma melhora funcional transitória em múltiplos domínios em uma idosa com doença de Alzheimer avançada, após a administração de uma dose elevada de cogumelos contendo psilocibina. A pesquisa, liderada pelo psiquiatra Marcos Lago, já acumula mais de 140 mil visualizações e centenas de downloads, além de ter sido destaque em diversas reportagens e publicações especializadas, como a revista New Scientist.
O trabalho, intitulado “Melhora funcional transitória em múltiplos domínios na doença de Alzheimer avançada após a administração de dose elevada de cogumelos contendo psilocibina: relato de caso”, conta com Mariana Cerveira e Joe Xavier Simonet como coautores. Uma das peculiaridades do relato é sua origem: o Departamento Médico da Associação Cruz de Ankh, uma organização religiosa fundada e presidida por Marcos Lago, com Cerveira como vice-presidente. Joe Xavier Simonet, coautor e filho da paciente, é um norte-americano residente no Brasil.
O caso em si apresenta diversos aspectos notáveis: a paciente, de 83 anos, de origem japonesa-americana, foi tratada no Brasil e diagnosticada com Alzheimer há uma década. A dose administrada foi de 5 gramas de cogumelos Psilocybe cubensis secos, o que Lago estima corresponder a 25-30 mg de psilocibina. Durante a fase aguda, a paciente apresentou suposta hipertermia, com sudorese intensa, embora não confirmada por termômetro.
Os autores declararam que a aprovação ética não foi requerida para este relato de caso único, conduzido em prática clínica privada de rotina, em conformidade com a legislação local. O consentimento para a publicação veio exclusivamente do filho da paciente, Joe Xavier Simonet, que é também coautor do artigo.
Melhora notável e relatos do familiar
A descrição da melhora na paciente é um dos pontos centrais do artigo. Antes da intervenção com cogumelos, nos cinco anos precedentes, a idosa falava em palavras isoladas, necessitava de auxílio para se locomover, apresentava incontinência urinária, dificuldade para engolir e apatia. Após cerca de 10 horas de observação na casa e consultório de Lago, a paciente demonstrou capacidade de concordar em ir embora. Posteriormente, cerca de 19 horas após o início da sessão, Simonet relatou que sua mãe começou a falar articuladamente sobre sua vida.
Nos dias seguintes, a incontinência urinária teria cessado, e a paciente passou a andar e se vestir sem ajuda. Iniciou conversas e sua memória melhorou a ponto de sustentar a comunicação. Fora do ambiente clínico, todas essas observações foram feitas pelo filho, que, segundo o relato, suspendeu todos os medicamentos da mãe, mantendo apenas o da pressão arterial. Simonet teria expressado a Lago: “Minha mãe voltou”. Em junho, a paciente retornou para uma quinta dose reduzida de cogumelos, demonstrando satisfação com a experiência.
Questões éticas e posicionamento do pesquisador
A repercussão do artigo trouxe à tona questionamentos, principalmente sobre a falta de consentimento informado da paciente, dado o seu diagnóstico de Alzheimer avançado. Críticos argumentam que, com a comunicação prejudicada, a paciente poderia não ter a capacidade de avaliar os efeitos da psilocibina ou de expressar eventual sofrimento psíquico.
Em sua defesa, Marcos Lago, que se define como tendo realizado uma “intervenção filosófico-religiosa, não um estudo”, afirma que não cometeu erro e não deve ser punido por ter feito algo correto. Ele compara a situação com outras medicações que também podem alterar a consciência ou causar efeitos colaterais, para as quais o consentimento também é um desafio. Lago também ressalta que as cerca de 200 pessoas que já participaram de cerimônias na Associação Cruz de Ankh assinam termo de consentimento.
Após a publicação, Lago foi procurado por familiares de pessoas com Alzheimer, mas recusou atendê-las em sua prática clínica como psiquiatra, alegando questões de ética médica. Ele diferencia o contexto da sua intervenção religiosa/filosófica da prática clínica rotineira.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo periódico Frontiers in Neuroscience e reportagens subsequentes.
