Atenção prolongada ao período pós-parto é essencial para a saúde materna.
Um estudo publicado em março na revista Canadian Medical Association Journal revela que um acompanhamento médico mais rigoroso e estendido nas seis semanas após o parto pode diminuir em cerca de um terço as complicações mais graves que afetam as mulheres neste período. Essas complicações, que incluem desde hemorragias e pré-eclâmpsia até infecções como a sepse, podem ter impactos físicos, psicológicos e sociais duradouros, exigindo prevenção, diagnóstico e tratamento precoces.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o puerpério como o período de até 42 dias após o parto, com diretrizes específicas para os cuidados nessa fase. A ginecologista e obstetra Fernanda Sawaguchi Faig, do Einstein Hospital Israelita, destaca que o estudo reforça a percepção clínica de que muitos eventos graves ocorrem tanto no pré quanto no pós-parto, e não apenas durante o nascimento. A sepse, segundo a especialista, emerge como uma das principais causas de morbidade nesse contexto.
A pesquisa analisou aproximadamente um milhão de nascimentos na província de Ontário, Canadá, entre 2012 e 2021. Os resultados indicam que 16% das complicações ocorreram durante a gestação, 55% durante o parto e quase 30% no período pós-parto. As intercorrências mais frequentes em cada etapa foram abdômen agudo (gestação), hemorragia severa (parto) e sepse (puerpério), com quase 4% dos casos apresentando complicações em mais de uma fase. O abdômen agudo, por exemplo, pode ser um sinal de condições como apendicite, cujo reconhecimento rápido é vital para evitar desfechos graves.
Riscos que persistem após a alta hospitalar
A transição para casa após o parto não marca o fim dos riscos. Pacientes que tiveram uma gestação e um parto aparentemente sem intercorrências podem, posteriormente, desenvolver endometrite, infecções em feridas operatórias, hemorragias secundárias, pré-eclâmpsia pós-parto, tromboembolismos, mastites complicadas ou cardiomiopatia periparto, como exemplifica a Dra. Faig. No Brasil, além de hipertensão e hemorragias, a infecção puerperal figura entre as principais causas diretas de morte materna, reforçando a necessidade de um acompanhamento mais frequente e prolongado, que pode se estender até 12 semanas, dependendo da condição da paciente.
Fatores de risco e iniquidades no cuidado
Mulheres com histórico de problemas de pressão arterial, transtornos de humor, diabetes, infecções em feridas cirúrgicas, lacerações graves em partos vaginais e dificuldades crônicas de amamentação são consideradas de maior risco e necessitam de atenção especial. O estudo canadense identificou como fatores de risco a obesidade, hipertensão, diabetes, gestações múltiplas, cesarianas, mães de primeira viagem, idades extremas (adolescentes ou acima de 40 anos), mulheres negras e de baixa renda. Essas condições espelham a realidade brasileira, onde as iniquidades sociais e regionais tornam o cuidado puerperal ainda mais inconsistente e desafiador.
O alto índice de cesarianas no Brasil também é um ponto de atenção. Embora a cirurgia em si não seja a única causadora de complicações, um sistema com alta taxa de cesáreas pode potencializar riscos de hemorragia, infecção e problemas em gestações futuras, como a placenta acreta. Apesar de o país possuir diretrizes para o acompanhamento pós-parto, incluindo consultas na primeira semana e entre 30 e 42 dias, a prática clínica ainda apresenta uma lacuna em relação ao que é recomendado, com desigualdades regionais, raciais e socioeconômicas persistindo como obstáculos significativos para a saúde materna.
Sinais de alerta que exigem atenção médica imediata
É fundamental que gestantes e puérperas estejam atentas a sinais que demandam avaliação médica urgente. Durante a gravidez, incluem-se sangramentos, dores de cabeça intensas ou persistentes, visão turva, falta de ar, dor no peito, dor epigástrica, febre, calafrios e dores abdominais ou pélvicas intensas. No pós-parto, os sinais de alerta compreendem sangramento excessivo ou com odor forte, corrimento vaginal com mau cheiro, sintomas urinários com redução do volume da urina, convulsões, mal-estar acentuado, pressão arterial elevada e episódios de desmaio.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Canadian Medical Association Journal e comentados pela ginecologista e obstetra Fernanda Sawaguchi Faig, do Einstein Hospital Israelita.
