Dizer 'não' pode ser ato de resistência e integridade pessoal, afirma médica
Dizer ‘não’ pode ser ato de resistência e integridade pessoal, afirma médica

Dizer ‘não’ pode ser ato de resistência e integridade pessoal, afirma médica

A dificuldade em recusar pedidos e ordens pode ter raízes profundas na nossa formação social e psicológica, mas aprender a dizer “não” de forma consciente pode ser um caminho para a integridade. O policial Alex Kueng, homem negro que desejava ser uma ponte entre a comunidade e a polícia de Minneapolis, viu-se em uma situação […]

Resumo

A dificuldade em recusar pedidos e ordens pode ter raízes profundas na nossa formação social e psicológica, mas aprender a dizer “não” de forma consciente pode ser um caminho para a integridade.

O policial Alex Kueng, homem negro que desejava ser uma ponte entre a comunidade e a polícia de Minneapolis, viu-se em uma situação limite em seu terceiro dia de trabalho. Ao presenciar um colega mais experiente pressionar o joelho na nuca de George Floyd, Kueng obedeceu à ordem e segurou as pernas do homem, mesmo que isso contrariasse seus princípios. Este episódio, embora extremo, reflete uma dinâmica comum a muitas pessoas: a dificuldade em dizer “não” diante da pressão social e hierárquica.

Em seu livro “Ouse Dizer Não”, a médica especialista em psicologia organizacional Sunita Sah explora as complexas razões por trás dessa dificuldade. Segundo ela, somos profundamente condicionados a obedecer, muitas vezes seguindo a “maré” mesmo quando intuições nos alertam para o contrário. A autora argumenta que dizer “não”, quando alinhado com nossos valores, pode se configurar como um ato de resistência e afirmação pessoal.

A ansiedade da crítica direta, ou seja, o receio de uma avaliação negativa por parte de outra pessoa, é apontada por Sah como uma força subestimada no comportamento humano. “A incapacidade de dizer ‘não’ raramente tem a ver com fraqueza de caráter. Tem a ver com uma pressão que a maioria de nós nunca aprendeu a reconhecer, muito menos a resistir”, afirma Sah. Frequentemente, o “sim” é dito para preservar a imagem alheia, em uma ilusão de gentileza, mas que na prática representa uma “transferência de custo”, onde o constrangimento é evitado a curto prazo, mas o dano pode recair sobre nós ou outros.

A cultura e a hierarquia como barreiras à recusa

Para culturas como a brasileira, que valoriza a cordialidade e o “jeitinho”, dizer “não” pode ser particularmente desafiador. A autora observa que, em sociedades que recompensa a harmonia, uma recusa pode ser interpretada como uma afronta pessoal, e não como uma simples escolha individual. No entanto, Sah ressalta que mesmo em países que se orgulham da autonomia, como os EUA e o Reino Unido, os níveis de conformidade são surpreendentemente altos.

A hierarquia profissional e social também impõe barreiras significativas. No caso de Kueng, sua vivência pessoal com a repressão policial e o preconceito, somada à estrutura hierárquica da corporação, tornava a desobediência uma opção de alto risco. Sah descreve uma “hierarquia da desobediência”, onde normas sociais, estereótipos e expectativas definem quem tem permissão para se manifestar e quem deve acatar.

Integridade pessoal acima da conformidade

A especialista enfatiza que a submissão, muitas vezes, é um mecanismo de autopreservação. A chave, contudo, reside na consciência dessa escolha. O problema surge quando agimos no “modo automático”, sem reconhecer o motivo por trás de nossa conformidade. A proposta de Sah não é um “não” generalizado, mas sim a prática de agir em consonância com os próprios valores.

Para distinguir entre seguir princípios genuínos e ceder a pressões, Sah sugere separar valor de moral. Uma convicção moral pode parecer uma verdade absoluta, mas é crucial questionar a origem da recusa: “Estou recusando porque isso viola quem eu sou, ou porque meu grupo espera que eu recuse?”. Dizer “não” por obrigação ou para agradar é, segundo ela, apenas outra forma de ser controlado.

A desobediência, para ser eficaz, não deve ser impulsiva, mas sim uma prática construída através de pequenos atos e disciplina. “Quando decidimos que a rebeldia pertence apenas aos corajosos, aos ousados ou aos extraordinários, convenientemente nos isentamos do trabalho”, argumenta. A autora conclui que o objetivo não é tornar-se alguém mais corajoso, mas sim “se tornar mais quem você já é”, agindo com integridade e alinhado aos seus valores fundamentais.

As informações foram reunidas a partir do livro “Ouse Dizer Não”, de Sunita Sah, publicado no Brasil pela editora Sextante.

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