A Contagem Regressiva para o Fim dos Segundos Extras Chegou
Em uma decisão que pode parecer sutil para o público em geral, mas que carrega implicações profundas para a ciência e a tecnologia, delegados da Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) votaram na última quinta-feira (15) para abolir os chamados “segundos bissextos” a partir de 2027. Essa medida visa eliminar as complexidades e os potenciais riscos associados à adição de segundos extras ao Tempo Universal Coordenado (UTC), o padrão de tempo global. A prática, em vigor desde 1972, adicionou 27 segundos ao longo das últimas cinco décadas para manter a sincronia entre o tempo medido por relógios atômicos, extremamente precisos, e o tempo solar, que depende do movimento de rotação da Terra.
A performance artística de Sara Morawetz em 2015, que marcou o momento exato de um segundo bissexto com um som de pratos na Times Square, simbolizou a peculiaridade desse ajuste temporal. Embora essenciais para a astronomia e a manutenção da ligação entre a medição do tempo e o movimento planetário, os segundos bissextos tornaram-se um ponto de discórdia para setores que dependem de cronometragem ultraprecisa.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The Conversation.
O Risco da Precisão e a Preocupação das Gigantes da Tecnologia
A controvérsia em torno dos segundos bissextos reside em seu potencial de causar falhas em sistemas computacionais críticos. Setores como o mercado financeiro, telecomunicações, energia e centros de dados dependem de uma sincronização temporal rigorosa. Falhas nesse sincronismo podem levar a interrupções, como as observadas em 2012, quando sites populares como Reddit e LinkedIn apresentaram instabilidade, e voos da companhia aérea Qantas sofreram atrasos após a adição de um segundo bissexto.
Grandes empresas de tecnologia, em particular, demonstraram desconforto com a imprevisibilidade dos segundos extras. A Google, por exemplo, desenvolveu métodos para “distribuir” o segundo bissexto ao longo de várias horas, em vez de adicioná-lo abruptamente. Essa abordagem, e a adoção de soluções similares por outras companhias, levantou preocupações sobre a capacidade do UTC de permanecer como o padrão de tempo dominante. Mario Maniewicz, diretor da União Internacional de Telecomunicações (UIT-R), destacou a necessidade de atualizar a “hora do relógio” para atender às demandas do século XXI.
Um Novo “Bug do Milênio” à Vista?
A decisão de abolir os segundos bissextos foi antecipada em relação a um acordo anterior, que previa a sua eliminação até 2035. A urgência decorreu de previsões sobre a possibilidade de introdução de um “segundo bissexto negativo” – a subtração de um segundo. Essa perspectiva, comparada a um novo “Bug do Milênio”, gerou alarme devido ao potencial de causar um impacto sem precedentes nos sistemas globais. A crescente perda de usuários do UTC para sistemas de medição de tempo mais simples acelerou a necessidade de uma resolução.
Com a abolição a partir de 2027, o UTC será redefinido para se tornar um padrão global mais estável e livre de controvérsias para muitas atividades econômicas. Contudo, essa mudança representa um dilema para a comunidade astronômica, que perderá o UTC como um indicador direto da rotação terrestre. A proposta à CGPM sugere que os astrônomos deverão buscar alternativas para suas necessidades específicas.
Repensando o Tempo: Necessidades e Alternativas
A decisão da CGPM levanta uma questão fundamental: as necessidades das grandes empresas de tecnologia foram priorizadas em detrimento de outros setores? A abolição dos segundos bissextos reflete uma visão de que os relógios, longe de serem abstratos e objetivos, são ferramentas de design que podem ser adaptadas às necessidades em constante mudança. Enquanto empresas de tecnologia ganham fluidez em seus sistemas, a astronomia enfrenta o desafio de encontrar novas formas de monitorar a rotação da Terra.
Essa redefinição do tempo nos convida a questionar outras “necessidades dos usuários” que podem estar sendo negligenciadas pela suposição de um único horário padronizado para todas as atividades humanas. A própria experiência humana com o tempo, marcada por pressões e ansiedades, sugere que a rigidez do relógio atômico pode não atender a todas as demandas. A possibilidade de “reinventar o tempo” é explorada em iniciativas como o relógio “The Present” de Scott Thrift, que acompanha as estações em vez de horas e minutos, ou os relógios criados por cientistas para missões em Marte, adaptados à duração dos dias marcianos. A questão que permanece é se estamos dispostos a deixar a evolução do tempo nas mãos dos maiores “players” ou se há espaço para uma diversidade de abordagens temporais que contemplem diferentes necessidades humanas e científicas.
