A primeira consulta ginecológica: como acolher meninas e adolescentes
A primeira consulta ginecológica: como acolher meninas e adolescentes

A primeira consulta ginecológica: como acolher meninas e adolescentes

A primeira visita ao ginecologista pode ser um marco na saúde menstrual de crianças e adolescentes, mas muitas vezes é marcada pela falta de escuta e pelo silenciamento de dores. Um movimento de ativistas e médicos busca mudar esse cenário, propondo um modelo de atendimento centrado na paciente. Frases como “é só uma dorzinha” ou […]

Resumo

A primeira visita ao ginecologista pode ser um marco na saúde menstrual de crianças e adolescentes, mas muitas vezes é marcada pela falta de escuta e pelo silenciamento de dores. Um movimento de ativistas e médicos busca mudar esse cenário, propondo um modelo de atendimento centrado na paciente.

Frases como “é só uma dorzinha” ou “quando engravidar, passa” são relatos frequentes de meninas e adolescentes que sofrem com cólicas menstruais intensas. Essa normalização da dor pélvica e o desconhecimento sobre o próprio ciclo menstrual levam anos para que doenças como a endometriose sejam diagnosticadas. Para combater essa realidade, ativistas se reuniram com ginecologistas em Brasília para discutir como deve ser a primeira consulta ginecológica de meninas e adolescentes, visando uma abordagem mais acolhedora e eficaz.

As conversas resultaram na percepção de que, além da dor física, as jovens enfrentam uma “trajetória de falta de escuta” nos consultórios médicos. O objetivo não é criticar os profissionais, mas sim capacitá-los a ouvir melhor, agilizando o diagnóstico de condições que, em média, levam de 10 a 12 anos para serem identificadas. Um guia para ginecologistas com essas orientações está previsto para ser lançado no início do próximo ano.

Escuta qualificada e sem pressa

A primeira consulta ideal começa com a permissão para que a adolescente entre sozinha no consultório, se assim desejar, e tenha espaço para expressar suas queixas sem interrupções. A ginecologista Brunely Galvão destaca que o médico só deve intervir para guiar a conversa caso a paciente tenha dificuldade em organizar seus relatos, algo que, segundo ela, ocorre cada vez menos.

Joyce Martins, outra ginecologista participante do movimento, enfatiza a importância da “escuta qualificada e receptiva”. Para ela, é fundamental que o profissional se esforce para “entrar no mundo da paciente”, buscando entender seus interesses, como músicas ou grupos favoritos, para que ela se sinta à vontade para se abrir. Essa abordagem se torna ainda mais crucial ao considerar as diversas realidades de raça e classe social, adaptando a comunicação para meninas indígenas e quilombolas, por exemplo, que podem ter formas distintas de lidar com a menstruação e as cólicas.

Respeito, autonomia e informação

As adolescentes deixaram claro que desejam ter voz ativa em seus cuidados de saúde. Isso significa que os profissionais não devem tutelar as jovens nem esperar que os responsáveis falem por elas, evitando também a infantilização do discurso. O Almanaque de Saúde Menstrual reforça que, a partir dos 12 anos, no SUS, a adolescente tem o direito de ser atendida sozinha ou com um acompanhante de sua confiança, e o sigilo médico é garantido, salvo em casos de risco grave à vida.

A consulta é vista como uma oportunidade de educar. Brunely Galvão sugere que os consultórios tenham modelos pélvicos para explicar a anatomia e materiais educativos sobre produtos de higiene menstrual. Joyce Martins complementa que o ginecologista deve explicar o funcionamento do corpo, o uso de absorventes, a natureza do sangue menstrual e, se possível, utilizar um espelho para mostrar a vulva e orientar sobre a higiene. A linguagem deve ser acessível, desmistificando o tema que se torna complexo apenas pelo tabu.

A menstruação não deve ser vista como o fim da infância. Expressões como “virou mocinha” podem gerar insegurança. O médico tem o papel de assegurar que a menina pode continuar brincando e praticando esportes, utilizando, por exemplo, calcinhas menstruais para maior segurança. Essa abordagem reduz a ansiedade, o medo e a vergonha, além de abrir espaço para discutir consentimento, dado o vínculo entre saúde menstrual e sexualidade.

Nenhuma dor é normal: a importância de investigar

Um dos pontos mais críticos levantados pelas jovens é a tendência de muitos profissionais desvalorizarem as queixas de dor. A cólica, quando incapacitante, impede atividades rotineiras como brincar ou ir à escola, e não deve ser tratada como um mero sintoma natural. Sangramentos intensos, que exigem troca frequente de absorventes, ou que duram muitos dias e vêm acompanhados de fraqueza e alterações intestinais, também são sinais de alerta que demandam investigação médica.

O ciclo menstrual deve ser considerado um sinal vital, assim como a pressão arterial, com perguntas sobre ele em todas as consultas. A prescrição de contraceptivos apenas para mascarar sintomas, sem buscar a causa raiz, é criticada. O almanaque propõe um roteiro chamado Menses (Idade da primeira menstruação, Frequência dos ciclos, Duração do sangramento, Quantidade de absorventes, Impacto na rotina e Início da última menstruação) para auxiliar as adolescentes a organizarem suas anotações para a consulta.

A responsabilidade, contudo, não recai apenas sobre as pacientes. O sistema de saúde, a família, a escola e os profissionais têm um papel crucial em oferecer o cuidado e a assistência necessários. Combater o racismo e outras formas de preconceito no atendimento é fundamental para garantir que todas as meninas sejam cuidadas e assistidas em sua saúde menstrual.

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