Doença tratável pode ser confundida com demência em idosos, alertam especialistas
Doença tratável pode ser confundida com demência em idosos, alertam especialistas

Doença tratável pode ser confundida com demência em idosos, alertam especialistas

A hidrocefalia de pressão normal (HPN), uma condição neurológica incomum e tratável, tem sido cada vez mais confundida com formas irreversíveis de demência, como o Alzheimer, em idosos. A semelhança nos sintomas, quando não identificada precocemente, pode levar a diagnósticos equivocados e atrasar o tratamento, comprometendo a qualidade de vida e as chances de recuperação […]

Resumo

A hidrocefalia de pressão normal (HPN), uma condição neurológica incomum e tratável, tem sido cada vez mais confundida com formas irreversíveis de demência, como o Alzheimer, em idosos. A semelhança nos sintomas, quando não identificada precocemente, pode levar a diagnósticos equivocados e atrasar o tratamento, comprometendo a qualidade de vida e as chances de recuperação dos pacientes. O caso do cantor Billy Joel, que se submeteu a uma cirurgia para tratar a HPN, trouxe à tona a importância de se conhecer essa doença reversível.

A HPN, que afeta em média uma a cada cem pessoas acima dos 60 anos, surge devido ao acúmulo anormal de líquido cefalorraquidiano (LCR) nos ventrículos cerebrais. Esse líquido, essencial para a proteção e nutrição do cérebro, quando em excesso, passa a comprimir os neurônios. Os sintomas se manifestam gradualmente, e quanto mais tempo a condição permanece sem tratamento, maiores os danos neuronais e menores as chances de uma recuperação completa.

Os principais sinais da HPN incluem alterações na marcha, tornando-a mais robótica, incontinência urinária ou urgência miccional frequente, e um raciocínio mais lento. É crucial notar que nem todos os pacientes apresentam todos esses sintomas simultaneamente, o que contribui para a dificuldade diagnóstica. “Os sintomas que ela traz fazem com que os familiares muitas vezes a confundam com o próprio envelhecimento”, explica o neurologista Iron Dangoni Filho, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. Ele ressalta que a busca por outros especialistas, como ortopedistas e urologistas, sem a devida conscientização sobre a HPN, pode levar à perda de tempo valioso para o tratamento.

Diagnóstico e Tratamento: A Corrida Contra o Tempo

O diagnóstico da HPN baseia-se na observação dos sinais clínicos e é confirmado por meio de ressonância magnética, que evidencia as alterações nos ventrículos cerebrais. Quando diagnosticada precocemente, a doença pode ser revertida com uma cirurgia que implanta uma válvula para drenar o excesso de LCR. No entanto, o procedimento é complexo, especialmente para idosos, e nem todos os pacientes se beneficiam igualmente.

Diretrizes internacionais indicam que cerca de 70% a 80% dos pacientes com HPN podem ter seus sintomas revertidos com a cirurgia. A eficácia depende do tempo de convivência com a doença, pois a deterioração das estruturas neurais pode ser irreversível mesmo após o alívio da pressão. Para avaliar o potencial benefício cirúrgico, utiliza-se o “Tap test”, um exame menos invasivo que consiste na retirada de LCR por punção lombar. A melhora na marcha e no controle urinário após o procedimento indica uma resposta positiva ao tratamento definitivo.

O Tap test, disponível em centros especializados da rede privada no Brasil, ainda não é amplamente incorporado pelo SUS ou pelos planos de saúde. Contudo, alguns centros públicos realizam uma avaliação subjetiva baseada no relato do paciente. “O Tap test positivo nos dá mais segurança para realizar a cirurgia, já que ele comprova os benefícios”, afirma Dangoni. A precisão do exame pode ser aprimorada com o uso de sensores que tornam a avaliação mais objetiva, como os utilizados no Einstein em Goiânia.

A recuperação de pacientes com HPN após o tratamento pode ser notável. “Na prática clínica da neurologia, convivemos com muitas demências que são progressivas, no máximo controláveis. Ver um paciente que não caminhava se movendo livremente e recuperando suas próprias memórias é uma das experiências mais gratificantes que podemos ter”, conclui o neurologista. O caso de Billy Joel, que relatou melhora na memória e no equilíbrio logo após a cirurgia, reforça a esperança e a importância da conscientização sobre essa condição tratável. “Conhecer o caso de figuras famosas ajuda a trazer mais atenção para a doença e isso pode salvar vidas. Quanto antes o diagnóstico da condição é feito, mais provável é termos resultados de cura após a cirurgia”, finaliza Dangoni.

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