A chegada europeia à América não começou em 1492. Séculos antes da expedição de Cristóvão Colombo, navegadores vikings já exploravam e colonizavam partes do continente norte-americano. Essa “história esquecida” é narrada em antigas sagas e confirmada por descobertas arqueológicas.
Enquanto a chegada de Cristóvão Colombo às Bahamas em 12 de outubro de 1492 é amplamente celebrada, a história da exploração europeia da América é muito mais antiga. Os vikings, navegando a partir da Islândia e Groenlândia, alcançaram o que hoje é a América do Norte aproximadamente 500 anos antes de Colombo. Suas viagens, no entanto, não foram marcadas por proclamações reais ou grandes recepções, mas sim registradas em sagas, relatos que misturam história e épica.
O manuscrito do século XIV conhecido como Flateyjarbók, ou “Livro da Ilha Plana”, é uma das fontes mais valiosas para entender essa história. Em 1893, a importância do livro foi tamanha que, para a Exposição Universal de Chicago, que comemorava os 400 anos da viagem de Colombo, houve uma oferta de enviar um navio de guerra para buscar o manuscrito na Dinamarca, transportá-lo em um trem blindado e segurá-lo por um milhão de dólares. Os dinamarqueses, no entanto, recusaram o risco. O “Livro de Flatey” contém relatos da colonização nórdica da Groenlândia no século X e, notavelmente, da descoberta e tentativa de colonização da América do Norte pelos nórdicos.
As informações sobre essas primeiras viagens transatlânticas foram compiladas a partir de análises do Flateyjarbók, relatos de pesquisadores como Robin Ellis e Emily Lethbridge, e descobertas arqueológicas, como o sítio de L’Anse aux Meadows no Canadá. A historiadora Kirsten Seaver e o arqueólogo Robert McGhee também contribuem com perspectivas sobre o conhecimento medieval e a possível ciência por trás das viagens de Colombo.
Da Islândia à Groenlândia: Os primeiros passos nórdicos
Os nórdicos chegaram à Islândia por volta do ano 870 e estabeleceram-se na Groenlândia cerca de cem anos depois. A partir da Groenlândia, a travessia de aproximadamente 320 km pelo estreito de Davis levava à ilha de Baffin, no Canadá, que eles chamaram de Helluland, a “terra das lajes de pedra”. Seguindo pela costa sul, chegaram ao Labrador, batizado de Markland, a “terra das florestas”, e avançaram ainda mais ao sul até uma região que nomearam Vinland, a “terra das videiras”. Essas sagas indicam que os exploradores não se fixaram em um único local, mas exploraram diversas regiões por vários anos.
Erik, o Vermelho, uma figura proeminente nessas narrativas, foi expulso da Islândia em 982 após uma disputa violenta. Esse exílio o levou a descobrir a Groenlândia e a fundar o primeiro assentamento permanente na região, que perdurou por cerca de 500 anos e serviu como base para as expedições à América do Norte. Essas viagens transatlânticas eram realizadas em embarcações abertas, demonstrando a audácia e a disposição dos nórdicos em enfrentar grandes desafios em busca do desconhecido.
Evidências arqueológicas e a continuidade da exploração
Em 1960, um acampamento viking em L’Anse aux Meadows, na ilha de Terra Nova, Canadá, foi descoberto, servindo como ponto de parada para as expedições nórdicas. Pesquisas mais recentes, utilizando técnicas de datação avançadas, indicaram que a ocupação do local remonta a cerca de mil anos atrás, confirmando a presença viking na América do Norte por volta do ano 1000. Evidências arqueológicas sugerem que os nórdicos continuaram a realizar viagens ocasionais ao continente por dois a três séculos após a chegada inicial.
A presença nórdica na Groenlândia se estendeu até o início do século XV. Liderados por Leif Eriksson, filho de Erik, o Vermelho, os vikings teriam realizado múltiplas travessias marítimas até a América do Norte. A ideia de que eles desistiram após a chegada a Vinland é contestada por descobertas que apontam para uma presença contínua e intermitente ao longo dos séculos.
Colombo sabia da Vinlândia?
Há indícios de que Cristóvão Colombo poderia ter conhecimento das viagens nórdicas à América do Norte. Historiadores apontam que, durante a Idade Média, ocorreram viagens regulares entre a Groenlândia e a América do Norte. Em 1480, houve uma tentativa deliberada de navegar diretamente para o que chamavam de “ilha de Brasil”, sem passar pela Groenlândia. Um documento de 1497, escrito por John Day a Colombo, menciona que navegadores de Bristol já realizavam viagens para o norte há muitos anos, sugerindo que tal conhecimento era de domínio público. Algumas teorias sugerem que Colombo pode ter deliberadamente evitado terras que sabia já terem sido descobertas por europeus, optando por uma rota mais longa com o objetivo de contornar a América e alcançar as riquezas do Extremo Oriente.
