Psicodélico para Alzheimer: Estudo Brasileiro Gera Euforia e Ceticismo Mundial
Psicodélico para Alzheimer: Estudo Brasileiro Gera Euforia e Ceticismo Mundial

Psicodélico para Alzheimer: Estudo Brasileiro Gera Euforia e Ceticismo Mundial

Um caso que correu o mundo Um artigo científico publicado em maio pelo periódico médico Frontiers in Neuroscience, de autoria brasileira, causou grande repercussão global. A pesquisa, que detalha a melhora funcional em uma paciente idosa com Alzheimer após o uso de psicodélicos (cogumelos contendo psilocibina), atraiu a atenção de milhares de pessoas e veículos […]

Resumo

Um caso que correu o mundo

Um artigo científico publicado em maio pelo periódico médico Frontiers in Neuroscience, de autoria brasileira, causou grande repercussão global. A pesquisa, que detalha a melhora funcional em uma paciente idosa com Alzheimer após o uso de psicodélicos (cogumelos contendo psilocibina), atraiu a atenção de milhares de pessoas e veículos de comunicação, mas também gerou controvérsia.

O trabalho, liderado pelo psiquiatra Marcos Lago, com coautoria de Mariana Cerveira e Joe Xavier Simonet, já acumula mais de 140 mil visualizações e centenas de downloads. A publicação foi noticiada por importantes veículos internacionais, como a revista New Scientist, e gerou amplo debate na comunidade científica e entre o público em geral. O relato, intitulado “Melhora funcional transitória em múltiplos domínios na doença de Alzheimer avançada após a administração de dose elevada de cogumelos contendo psilocibina: relato de caso”, descreve resultados considerados espantosos, especialmente por se tratar de um único paciente.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Frontiers in Neuroscience e entrevistas com o psiquiatra Marcos Lago.

Peculiaridades do Estudo e da Paciente

Diversos aspectos do relato chamam a atenção. A pesquisa foi conduzida pelo Departamento Médico da Associação Cruz de Ankh, uma organização religiosa cujo fundador e presidente é o próprio psiquiatra Marcos Lago, e vice-presidente é Mariana Cerveira. Joe Xavier Simonet, coautor do artigo e filho da paciente, é um norte-americano residente no Brasil. A paciente, uma idosa de 83 anos de origem japonesa-americana, havia sido diagnosticada com Alzheimer há uma década.

A dose administrada foi de 5 gramas de cogumelos Psilocybe cubensis secos, o que Lago estima corresponder a 25-30 mg de psilocibina. Durante a fase aguda do efeito psicodélico, a paciente apresentou suspeita de hipertermia, com sudorese intensa, embora não tenha havido comprovação por termômetro. Outro ponto relevante é a declaração dos autores de que a aprovação ética não foi requerida, por se tratar de um relato de caso único em prática clínica privada, conforme a legislação local. O consentimento para a publicação veio apenas do filho da paciente, Simonet, que é coautor do estudo.

Melhora Significativa e Controvérsias Éticas

O artigo descreve uma melhora notável na condição da paciente. Nos cinco anos anteriores à intervenção, ela falava apenas por palavras isoladas, necessitava de auxílio para andar, sofria de incontinência urinária, tinha dificuldade para engolir e apresentava apatia. Após a administração dos cogumelos, e sob observação, a paciente demonstrou uma recuperação impressionante. Cerca de 19 horas após o início da sessão, ela começou a falar de forma articulada sobre sua vida. Nos dias subsequentes, a incontinência cessou, ela passou a caminhar e se vestir sem ajuda, iniciava conversas e sua memória melhorou a ponto de sustentar a comunicação.

Essas observações fora do ambiente clínico foram feitas exclusivamente pelo filho, que relatou ter suspendido todos os medicamentos da mãe, exceto o da pressão arterial. “Minha mãe voltou”, teria dito Simonet a Lago.

A repercussão do caso gerou questionamentos, principalmente sobre a falta de consentimento informado. Críticos apontam que, se o diagnóstico de Alzheimer avançado for correto, a paciente poderia não ter a capacidade de avaliar os riscos e benefícios da psilocibina, nem de comunicar eventual sofrimento psíquico. O psiquiatra Marcos Lago, no entanto, defende sua conduta, afirmando ter realizado uma “intervenção filosófico-religiosa, não um estudo” e que não cometeu erro ético. Ele ressalta que em cerimônias religiosas organizadas pela Associação Cruz de Ankh, os cerca de 200 participantes assinam termo de consentimento.

Após a publicação, Lago foi procurado por familiares de outros pacientes com Alzheimer, mas recusou atendê-los em sua prática clínica privada, alegando questões de ética médica.

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