O debate sobre a capacidade de ‘pensar’ da inteligência artificial ganhou novas nuances com as declarações do renomado neurofisiologista alemão Wolf Singer. Para o diretor emérito do Instituto Max Planck para Pesquisa do Cérebro, a comparação entre a IA e o cérebro humano é falha, especialmente quando se trata de tomadas de decisão complexas que envolvem valores e nuances. Singer, que esteve recentemente no Brasil para cooperação científica, ressalta que a lógica de funcionamento de ambos os sistemas é fundamentalmente distinta.
Singer explica que, enquanto os computadores processam informações de forma sequencial e com memória separada do processador, o cérebro opera em uma dinâmica contínua e interconectada de neurônios que se comunicam através de oscilações. “A IA simula certas funções presentes nos sistemas naturais e contorna a falta da dimensão tempo por meio de algoritmos. Mas nos cérebros isso não é simulado, eles naturalmente vivem no tempo, naturalmente têm dinâmica”, afirma o cientista.
Essa diferença essencial, segundo o neurofisiologista, torna problemático o uso de modelos de IA para decisões de alto impacto, como as empregadas em contextos militares ou judiciais. Ele cita como exemplo o suposto uso de uma ferramenta da Anthropic pelo Pentágono em operações na Venezuela. “Quando você começa a fazer perguntas mais sofisticadas, que dizem respeito a valores, fica problemático”, alerta Singer, enfatizando a necessidade de conhecimento especializado para o uso responsável dessas tecnologias.
Diferenças arquitetônicas e funcionais
A distinção entre IA e cérebro vai além da temporalidade. Singer destaca a eficiência energética: o cérebro humano consome o equivalente a uma lâmpada fraca, enquanto supercomputadores de IA demandam quantidades “horrendas” de eletricidade. Mais crucial ainda é a arquitetura. Computadores digitais processam dados em etapas, sem a capacidade intrínseca de utilizar o tempo como registro de informação, algo que modelos como os transformers tentam contornar artificialmente. Em contrapartida, o cérebro, com seus neurônios em comunicação constante e oscilante, possui uma dinâmica natural e poderosa para processar e armazenar informações, onde memória e computação são intrinsecamente ligadas e adaptativas.
Potencial e riscos da IA
Apesar de suas ressalvas, Wolf Singer reconhece que existe um movimento em direção a modelos de IA que se aproximam do funcionamento cerebral. Ele vê potencial nesses sistemas como ferramentas de auxílio para especialistas, apresentando hipóteses e acessando vastos volumes de dados. No entanto, o perigo reside na delegação de julgamentos críticos a sistemas que não possuem a mesma capacidade de autoavaliação e validação que o cérebro humano. “Os cérebros têm sistemas embutidos que dizem a eles: agora você chegou ao resultado. Este é o momento ‘eureka’. Ainda pode estar errado, mas eles têm pelo menos uma forma de avaliar e validar as soluções às quais chegam”, pontua.
O neurofisiologista também alerta para o impacto da crescente dependência tecnológica na cognição humana. O uso constante de dispositivos para cálculos, navegação e armazenamento de informações pode levar à atrofia de capacidades cerebrais, como raciocínio lógico, orientação espacial e memória, um fenômeno que ele compara à delegação de tarefas a máquinas.
A visita de Singer ao Brasil, focada em cooperação científica com instituições como o IDOR Ciência Pioneira, reforça a importância de aprofundar os estudos sobre o cérebro em suas condições naturais e em aplicações translacionais, buscando um entendimento mais completo de sua complexidade em contraste com o avanço acelerado da inteligência artificial.
As informações foram reunidas a partir de declarações do neurofisiologista Wolf Singer.
