Setor agropecuário brasileiro reage com preocupação e críticas à decisão da União Europeia de bloquear a entrada de carne bovina, de aves, equídeos e pescados, além de subprodutos como ovos e mel, a partir de setembro. A medida, oficializada pela Comissão Europeia, baseia-se na ausência de informações do Brasil que comprovem o cumprimento das exigências sanitárias relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal.
Entidades representativas do agronegócio atribuem a exclusão do país a uma suposta lentidão e falta de ação do governo federal em fornecer os dados necessários. O temor é de que a demora na resolução do impasse gere um impacto econômico significativo para o setor, que tem o Paraná e o Rio Grande do Sul como importantes polos de produção.
As federações de agricultura do Paraná (Faep) e do Rio Grande do Sul (Farsul), assim como o ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera e o ex-governador Ronaldo Caiado, apontam falhas na coordenação, na comprovação ou na resposta tempestiva do governo brasileiro. A União Europeia exige evidências concretas do cumprimento das normas, e a falta delas pode afetar a credibilidade internacional do país. Conforme informações divulgadas pelas entidades, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) foi oficiado para que acelere as tratativas internacionais visando à superação dos entraves.
Paraná, Líder em Avicultura, Sofre com Embargo Europeu
O Sistema Faep expressou sua insatisfação, considerando o embargo uma consequência da morosidade do governo federal. O Paraná, líder absoluto na avicultura brasileira, com mais de 34% da produção nacional e cerca de 41% das exportações de carne de frango, viu suas exportações de itens potencialmente proibidos na Europa somarem US$ 235 milhões no ano passado, segundo a federação. O presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette, classificou a situação como inadmissível e clamou por ação imediata para evitar a suspensão de negócios e prejuízos aos pecuaristas.
A entidade argumenta que o embargo não reflete o status sanitário real da pecuária nacional e estadual. O Paraná, por exemplo, é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) desde 2021 como área livre de febre aftosa sem vacinação, uma certificação que o país só conquistou em 2025. Isso demonstra, segundo a Faep, que o Brasil possui protocolos sanitários robustos que precisam ser devidamente comprovados.
Farsul Aponta Falha de Coordenação e Exigência Conhecida
A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) também atribui ao governo federal uma falha de coordenação, comprovação ou resposta tempestiva à decisão da UE. Em nota técnica, a Farsul destacou que a proibição, motivada pelas regras sobre o uso de antimicrobianos, não foi uma surpresa. A análise da assessoria econômica da entidade sugere que o episódio é menos uma mudança súbita de regra e mais uma falha brasileira diante de uma exigência europeia já conhecida.
Ex-Ministro e Ex-Governador Criticam Incompetência e Falha Burocrática
Antonio Cabrera, ex-ministro da Agricultura, atribuiu a barreira imposta pela UE à **incompetência do governo federal**. Ele ressaltou que, após o acordo entre Mercosul e UE, era esperado um aumento na exigência dos europeus para proteger seus agricultores. Segundo Cabrera, o governo deveria ter agido com proatividade, apresentando documentação, rastreabilidade, auditoria e transparência, em vez de reagir apenas após o embargo.
Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência, apontou uma **falha burocrática no Ministério da Agricultura** como fator preponderante para o embargo. Ele lamentou que o Brasil não tenha respondido às exigências sanitárias, enquanto outros países latino-americanos o fizeram e foram liberados. Caiado, após se reunir com embaixadores de países da UE e EFTA, reiterou sua crença em uma falha na parte burocrática do ministério.
Especialista Alerta para Necessidade de Comprovação Prática
Ieda Queiroz, coordenadora de contratos e agronegócios do CSA Advogados, alertou que o Brasil corre risco real de perder competitividade internacional se não comprovar, de forma prática e auditável, o cumprimento das regras sanitárias. Ela enfatizou que a UE não trabalha com presunção de conformidade, exigindo **evidências verificáveis** sobre o uso de antimicrobianos e a rastreabilidade animal. A advogada ressaltou que a governança sanitária brasileira está sob escrutínio internacional, especialmente com sinais de restrições também do Reino Unido.
Queiroz explicou que, embora o Mapa reúna relatórios técnicos, a reabilitação depende da comprovação prática em toda a cadeia produtiva, indicando que a distância entre norma e prática ainda é grande. O Ministério da Agricultura e o Ministério das Relações Exteriores foram contatados, mas apenas o último informou manter diálogos com as autoridades europeias, sem detalhar as negociações em andamento para preservar o processo.