Folha Revoluciona Jornalismo Esportivo: Como Estatísticas Transformaram a Cobertura de Futebol no Brasil

Folha Revoluciona Jornalismo Esportivo: Como Estatísticas Transformaram a Cobertura de Futebol no Brasil

Folha de S.Paulo: A Pioneira das Estatísticas no Futebol Brasileiro Em meados de 1985, o jornal Folha de S.Paulo, sob a liderança de Otavio Frias Filho, iniciou um processo de modernização que visava tornar suas reportagens mais objetivas e precisas. Nesse contexto de inovação, surgiu um desafio que mudaria a cobertura esportiva no Brasil. Carlos […]

Resumo

Folha de S.Paulo: A Pioneira das Estatísticas no Futebol Brasileiro

Em meados de 1985, o jornal Folha de S.Paulo, sob a liderança de Otavio Frias Filho, iniciou um processo de modernização que visava tornar suas reportagens mais objetivas e precisas. Nesse contexto de inovação, surgiu um desafio que mudaria a cobertura esportiva no Brasil.

Carlos Eduardo Lins da Silva, então secretário de Redação, provocou Antonio Manuel Teixeira Mendes, o primeiro diretor do Datafolha, com uma questão simples, mas revolucionária: “Como os norte-americanos fazem com basquete, beisebol e outros esportes, a gente não consegue extrair as estatísticas do futebol?”, questionou.

Teixeira Mendes aceitou o desafio, e o que se seguiu foi um marco para o jornalismo esportivo brasileiro. A partir de então, a Folha de S.Paulo se tornaria a grande pioneira na aplicação de métodos estatísticos para analisar e apresentar o desempenho no futebol, uma prática até então inédita no país. Conforme informação divulgada pelo próprio jornal, essa iniciativa marcou o início de uma nova era na forma como o esporte mais popular do Brasil seria noticiado e compreendido.

O Nascimento da Análise Estatística no Futebol

A resposta ao desafio lançado por Lins da Silva foi a criação de uma equipe no Datafolha, inicialmente com cinco pessoas, dedicada a coletar e analisar dados de partidas de futebol. O objetivo era ir além da narração apaixonada e oferecer uma visão mais concreta do jogo.

Os pesquisadores foram treinados para contabilizar uma vasta gama de fundamentos, como chutes a gol, passes, cruzamentos, dribles e faltas. Cada ação de cada jogador e de cada equipe passou a ser registrada com rigor metodológico, buscando quantificar o desempenho em campo.

A estreia dessa nova abordagem ocorreu nos jogos da final do Campeonato Paulista de 1985, entre São Paulo e Portuguesa. Na edição de 16 de dezembro, os primeiros dados estatísticos apareceram de forma discreta, com informações sobre cabeçadas a gol e desarmes divididos por time.

O Detalhamento nas Páginas do Jornal

A edição de 23 de dezembro trouxe um aprofundamento na apresentação dos dados. Com o título do São Paulo em destaque, dois amplos quadros exibiram o desempenho detalhado dos times e de seus jogadores. Leitores puderam saber, por exemplo, que o ponta-esquerda Sidney foi o maior driblador da equipe campeã, com oito fintas na partida.

Essa iniciativa, segundo Teixeira Mendes, foi “revolucionária porque ninguém fazia isso no Brasil”. Ele ressalta que o jornal demonstrou “que era possível ter mais objetividade nessa área”, rompendo com a ideia de que futebol se resumia apenas à paixão e à opinião.

Apesar do pioneirismo, a novidade enfrentou resistência. “Achavam que o futebol estava ligado apenas à paixão e à opinião, não era algo que pudesse ser quantificado”, recorda-se Lins da Silva sobre as reações iniciais de colegas e de outros veículos. No entanto, nomes como Luiz Caversan e Marcelo Fagá foram fundamentais para superar essas barreiras.

A Copa do Mundo de 1986: Estatísticas em Escala Global

A mudança de paradigma se consolidou durante a Copa do Mundo do México, em 1986. A cobertura do primeiro jogo da seleção brasileira já demonstrava a nova filosofia do jornal.

A edição de 2 de junho de 1986, por exemplo, trazia a manchete “Brasil vence Espanha com auxílio do juiz”, refletindo um jornalismo independente e provocativo. Os repórteres Carlos Brickmann e Ricardo Kotscho, enviados a Guadalajara, apontaram a influência da arbitragem no resultado da partida.

Nessa mesma edição, uma variedade de abordagens estatísticas detalhava o aproveitamento de cada atleta em 14 itens e exibia, em um diagrama, os movimentos de ataque mais frequentes das equipes. A Folha também apresentou o “Ranking da Copa 86 – Primeira Fase”, um índice de produtividade criado por Luis Eduardo Salvucci Rodrigues e Marco Antonio Figueiredo de Castro.

Este indicador, obtido por uma fórmula que somava ataques, erros do adversário e faltas recebidas, dividido por erros e faltas cometidas pelo próprio time, exigia uma equipe de dez pesquisadores do Datafolha atuando durante os 90 minutos de cada jogo. Os dados eram, então, transformados em texto e gráficos pelos jornalistas, cobrindo todos os 52 jogos do mundial.

Legado e Evolução da Análise Estatística

Apesar do sucesso na Copa de 1986, a aceitação das estatísticas no jornalismo esportivo demorou a se consolidar. A dificuldade de obter dados em campeonatos sem transmissão televisiva, como o Brasileiro e o Paulista, tornava a tarefa árdua para os pesquisadores do Datafolha, que por vezes precisavam atuar “no meio da torcida”.

A resistência, inclusive por parte da Aceesp, que buscava vetar o acesso da imprensa especializada a áreas de estádios, foi gradualmente superada. Com o tempo, emissoras de TV, rádio e outros jornais passaram a reconhecer o valor da análise estatística.

O trabalho do Datafolha não só enriqueceu a cobertura esportiva, mas também contribuiu para a formação de um amplo banco de dados, essencial para pesquisas futuras, como o livro “A História do Campeonato Paulista”. Hoje, a análise estatística é uma ferramenta indispensável, presente em diversas plataformas, incluindo o recente lançamento do **FolhaStats**, que aprofunda a cobertura de eventos esportivos com dados e análises táticas, demonstrando a contínua evolução dessa metodologia pioneira iniciada pela Folha de S.Paulo.

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