Inscrição em parede maia pode revelar o primeiro astrônomo do Novo Mundo
Inscrição em parede maia pode revelar o primeiro astrônomo do Novo Mundo

Inscrição em parede maia pode revelar o primeiro astrônomo do Novo Mundo

Um pequeno texto pintado em uma parede na antiga cidade maia de Xultun, na Guatemala, pode conter a primeira assinatura reconhecida de um astrônomo do Novo Mundo anterior à chegada dos europeus. A descoberta, detalhada na revista científica Antiquity, se baseia na interpretação de uma frase em maia que significa “assim diz Raposa do Peito […]

Resumo

Um pequeno texto pintado em uma parede na antiga cidade maia de Xultun, na Guatemala, pode conter a primeira assinatura reconhecida de um astrônomo do Novo Mundo anterior à chegada dos europeus. A descoberta, detalhada na revista científica Antiquity, se baseia na interpretação de uma frase em maia que significa “assim diz Raposa do Peito Branco”, atribuída a um indivíduo chamado Sak Tahn Waax.

A inscrição surge logo após uma série de cálculos astronômicos, encontrados nas paredes do que se acredita ter sido uma biblioteca pré-colombiana. Se a análise dos pesquisadores Franco Rossi (MIT), David Stuart (Universidade do Texas) e Heather Hurst (Skidmore College) estiver correta, a data maia associada às fórmulas seria 11 de novembro de 781 d.C. Na Europa, nessa mesma época, Carlos Magno já governava os francos.

O conhecimento matemático e astronômico dos maias já era amplamente reconhecido antes desta descoberta, feita em 2010. A civilização maia demonstrou um domínio notável de conceitos como o zero e seu uso em calendários complexos, antecipando o desenvolvimento matemático em outras partes do mundo. Embora se soubesse que escribas e artistas maias ocasionalmente assinavam suas obras, estas atribuições eram, em geral, de monarcas ou membros da elite. A possibilidade de um erudito maia atribuir a si mesmo um trabalho puramente astronômico-matemático é inédita.

Um Centro de Saber Maia

O texto em questão, conhecido como Texto 19, foi encontrado em uma estrutura batizada de Estrutura 10K-2. As paredes internas deste edifício apresentam pinturas de figuras humanas, incluindo um governante de Xultun do século VIII, Yax We’n Chan K’inich, em trajes cerimoniais. Estas figuras são acompanhadas por textos curtos que descrevem ciclos astronômicos, alguns parecendo esboços ou escritos por aprendizes. A presença de ferramentas para a fabricação de papel maia, feito de casca de árvore, sugere que o local pode ter servido como um centro de treinamento para escribas e estudiosos, onde manuscritos eram produzidos.

A reconstrução do Texto 19, composto por 11 hieróglifos, envolveu o uso de escaneamentos, imagens de infravermelho e desenhos em tamanho real dos murais, devido ao estado de preservação de alguns trechos. O texto registra um período de 2.920 dias, correspondente a oito anos, detalhando ciclos astronômicos significativos para a cultura maia. Este número é notável por ser o mínimo múltiplo comum entre o ano solar (365 dias) e o ciclo de Vênus (584 dias), indicando uma observação precisa dos movimentos celestes.

Adicionalmente, o texto considera outros ciclos importantes para os maias, como os de 20 dias (base de seu sistema numérico), 260 dias (um calendário cerimonial fundamental) e o ciclo de Marte (780 dias). Curiosamente, a ordem e a quantidade dos ciclos mencionados no texto maia guardam semelhança com o início da sequência de Fibonacci, uma relação que os autores do estudo consideram uma coincidência intrigante, mas ainda sem confirmação definitiva de um emprego maia do conceito.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista científica Antiquity.

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