Governos de esquerda na América Latina alertam para risco de isolamento em caso de vitória de Bolsonaro
A possibilidade de uma derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições brasileiras acende o alerta em governos de esquerda na América Latina. México, Uruguai e Cuba, nações com administrações alinhadas ideologicamente, manifestam incômodo com o cenário, temendo um aprofundamento do isolamento em um continente onde a direita tem acumulado vitórias nos últimos anos.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, evitou comentar diretamente a possibilidade de um resultado desfavorável a Lula, mas ressaltou a importância de se ater ao povo mexicano. Questionada sobre o isolamento do país em caso de derrota do petista, Sheinbaum afirmou que o principal aliado é o povo e que, enquanto o governo estiver próximo dele, não haverá problemas. No entanto, a líder mexicana adotou um tom crítico à direita, rotulando-a como um movimento político que se opõe ao povo e que busca intervir em outros países, algo que, segundo ela, o México tem denunciado.
No Uruguai, Fernando Pereira, presidente da Frente Ampla, coalizão de esquerda que apoia o atual governo, já expressou preocupação com a ascensão da extrema-direita na região. Pereira alertou que a chegada da direita ao poder tende a aniquilar direitos, citando exemplos no Brasil, Colômbia, Bolívia e Chile, e classificou a disputa no Brasil como um embate entre democracia e barbárie.
Em Cuba, a Casa das Américas, órgão ligado ao governo cubano, divulgou um comunicado definindo o momento como urgente para deter o avanço do neofascismo, com o Brasil sendo a principal trincheira eleitoral. Por outro lado, o líder oposicionista cubano, José Daniel Ferrer García, em artigo publicado no site Cibercuba, apontou que o regime comunista cubano teria perdas tangíveis com uma vitória de Bolsonaro, visto que o Brasil tem sido um aliado estratégico fundamental, fornecendo créditos, alimentos, médicos e apoio em fóruns internacionais. Segundo Ferrer, um governo Bolsonaro poderia significar o fim desse apoio e um alinhamento com os Estados Unidos, que tratam a ditadura cubana de forma crítica.
Brasil como contrapeso ideológico regional
Ricardo Caichiolo, doutor em ciências políticas e sociais e diretor do Ibmec Brasília, avalia que uma derrota de Lula teria um impacto significativo na coesão ideológica regional. Segundo ele, o Brasil, com seu poder relativo na América Latina, deixaria de ser um contrapeso ao eixo conservador que avança na região. Nesse cenário, países como México, Cuba e Uruguai perderiam um ator de peso alinhado aos seus interesses em fóruns multilaterais, o que, segundo Caichiolo, aprofundaria o isolacionismo desses países.
A análise de Caichiolo sugere que a ausência do Brasil como canal de negociação também isolaria ainda mais regimes autoritários como os da Venezuela e da Nicarágua, reduzindo sua margem de manobra diplomática e ampliando a influência geopolítica direta dos Estados Unidos na região.
Aliados distantes e tensões diplomáticas
Apesar da proximidade ideológica, alguns governos de esquerda da região já demonstram distanciamento de Lula. O regime sandinista da Nicarágua, historicamente aliado do PT, entrou em atrito com o Brasil nos últimos anos, culminando na expulsão de embaixadores após desentendimentos diplomáticos. O Brasil também manifestou preocupação com a suspensão de eleições na Nicarágua, gerando respostas ríspidas do regime de Daniel Ortega.
Na Venezuela, o governo interino tem atendido a demandas republicanas, enquanto a Guiana, apesar de ter um presidente de esquerda, aderiu ao plano de segurança de Donald Trump e abriu suas reservas de petróleo e gás para empresas americanas, o que tem gerado um forte crescimento econômico no país. Esses movimentos indicam que, mesmo em governos de esquerda, a dependência ou alinhamento com os Estados Unidos tem se tornado uma realidade em detrimento de alianças regionais mais consolidadas.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo jornal El País, site Cibercuba e entrevista à Gazeta do Povo.
